Entenda a ciência que usa música como tratamento para neurodivergência
Surgida no século XX, como suporte a vítimas de guerra nos Estados Unidos, a musicoterapia é uma ciência que utiliza a música com objetivos não-musicais. Atualmente, é aplicada com sucesso como tratamento, reabilitação e até mesmo prevenção de diversas condições de saúde.

No terceiro episódio da segunda temporada do podcast VideBula, as apresentadoras Patrícia Serrão e Raíssa Saraiva conversam com o musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, e pesquisador na Universidade de Aalborg (Dinamarca), Gustavo Gattino, sobre o impacto científico da musicoterapia no contexto da neurodivergência e de condições neurológicas.
Gattino explica a diferença entre educação musical e musicoterapia, detalhando como a prática atua no tratamento de pessoas autistas e com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Composta por quatro grandes pilares — improvisação, composição, recriação e recepção — a ciência possibilita, por exemplo, trabalhar a hipersensibilidade auditiva das pessoas dentro do Transtorno do Espectro Autista. O sintoma atinge entre 60% e 70% dos indivíduos diagnosticados.
"Por mais que o indivíduo possa, e muitas vezes deva utilizar o abafador, isso não vai prevenir algumas situações de enfrentamento de determinados ruídos. Um dos trabalhos do musicoterapeuta é orientar e capacitar as famílias para que elas aprendam a dessensibilizar esse indivíduo para que a música sirva, num primeiro momento, para a regulação emocional, e, aos poucos, para que o indivíduo consiga suportar e viver dentro do mundo que nos rodeia, que é um mundo barulhento."
O especialista aborda ainda o uso de músicas previsíveis para favorecer a atenção sustentada no TDAH e a aplicação de técnicas musicais para adultos e pacientes com Parkinson, Alzheimer ou AVC.
"[A musicoterapia] auxilia a retardar um determinado efeito que pode aparecer, seja de perda de memória, atenção, capacidade de motricidade ampla ou fina, assim como a própria fala. A música influencia especificamente para uma melhora dessas capacidades."
🎙️ Roteiro e apresentação: Patrícia Serrão e Raíssa Saraiva
✂️ Edição: Bia Arcoverde
🎵 Sonoplastia: Toni Godoy
📧 Contato: videbula@ebc.com.br
🎙️ VideBula é uma produção original da Radioagência Nacional, um serviço público de mídia da EBC.
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VideBula 2 – Episódio 3: Musicoterapia e Neurodivergência
🎵 Vinheta do VideBula🎵
Pati: Oi, gente! Começa agora mais um VideBula, seu podcast sobre saúde, direitos e inclusão sem barreiras, como deve ser.
Raíssa: Oi, eu sou Raíssa Saraiva, tenho Esclerose Múltipla. É, eu sei, a minha voz tá um pouquinho diferente, mas é porque eu fiquei gripada e fiquei meio rouca; mas tá tudo bem agora.
Pati: E eu sou Patrícia Serrão, tenho Síndrome de Ehlers-Danlos. Hoje a gente vai falar de musicoterapia no contexto da neurodivergência.
Raíssa: Será que música pode ser tratamento? Como funciona para autistas, pessoas com TDAH ou doenças neurológicas?
Pati: A gente conversou com o Gustavo Gattino: musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, e pesquisador na Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Bora pro episódio!
🎵 Trilha de Transição 🎵
Pati: Gustavo, o que é, de fato, a musicoterapia?
Gustavo: A musicoterapia, ela é uma ciência e uma disciplina que surgiu no século passado, no período entre guerras, onde músicos voluntários nos Estados Unidos visitavam pessoas que tinham tido algum trauma, algum prejuízo em função da guerra, para fazer música para essas pessoas. A partir então desse trabalho houve uma sistematização dessas práticas. Então surgiu a primeira associação de musicoterapia, depois o primeiro curso numa universidade, na Universidade do Kansas. E hoje a musicoterapia, ela é conhecida como uma intervenção sistemática, onde se utiliza a música para algum objetivo não musical.
Raíssa: E quem pode fazer? Precisa saber tocar algum instrumento?
Gustavo: A musicoterapia, ela é feita por um musicoterapeuta, que é um profissional que tem uma formação de nível superior. A musicoterapia, ela utiliza principalmente a improvisação, ou seja, eu criar música em tempo real com uma pessoa; a composição, onde eu posso compor uma música instrumental, uma música com letra; a performance de jogos e canções, então, eu posso tocar, eu posso cantar uma música, assim como eu posso criar um jogo musical com aquele indivíduo. E a partir daí eu também tenho a quarta experiência que é a experiência receptiva, onde eu vou escutar música e a partir dessa escuta eu posso realizar gestos, eu posso fazer um desenho.
Pati: Musicoterapia é a mesma coisa que educação musical?
Gustavo: A gente tem um grande espectro que vai desde aquilo que a gente chama de música e medicina até um outro extremo que seria musicoterapia. Então, existe sim um ponto em comum que o musicoterapeuta e o educador musical se encontram, que é essa parte de oferecer qualidade de vida e bem-estar. Onde que tá a diferença? A diferença é que a forma de interpretar e de analisar do musicoterapeuta é muito mais complexa, porque a musicoterapia, ela faz parte da área da saúde, enquanto que a educação musical, ela tem esse viés educacional, ela está na área de educação.
🎵 Trilha de Transição 🎵
Raíssa: Muitos autistas têm hipersensibilidade auditiva. Isso não briga com a musicoterapia?
Gustavo: As pesquisas mostram que entre 60% a 70% dos indivíduos dentro do espectro apresentam algum nível de hiper-responsividade a sons. Então, o que é que acaba acontecendo? Para esses indivíduos, uma coisa que foi tocada ali super baixinha parece uma coisa muito alta. Poxa, mas e então? Como é que ao mesmo tempo os estudos mostram que a música funciona e ela é inclusive uma forma de comunicação muito importante para os indivíduos dentro do espectro? Primeiro, a música, ela oferece a possibilidade de eu conseguir ajustar o volume, então já começa por aí. Mesmo eu tendo uma hiper-reatividade sonora, eu consigo adaptar o volume para que esse indivíduo ele consiga aproveitar a música, e o musicoterapeuta ele trabalha muito com isso, dentro do que a gente chama de dessensibilização sonora musical, onde eu consigo especificamente, a partir de um trabalho de começar com volume baixo, poucos sons, poucos instrumentos, eu vou acostumando aquele indivíduo para que ele consiga trabalhar com mais sons.
Pati: Como é feito na prática?
Gustavo: O mundo é barulhento, o mundo não é silencioso. Por mais que o indivíduo ele pode, muitas vezes deve utilizar o abafador, isso não vai prevenir de algumas situações para enfrentar determinados ruídos. Então um dos meus trabalhos é fazer o serviço de orientação e capacitação das famílias para que elas aprendam a dessensibilizar esse indivíduo para que a música sirva, num primeiro momento, para a regulação emocional, e aos poucos a gente vai colocando mais volume, mais sons, para que o indivíduo ele consiga suportar voltar e viver dentro do mundo que nos rodeia, que é um mundo barulhento.
Raíssa: Tem estratégia específica?
Gustavo: É o que a gente chama de música de suporte e música desafiadora. Então quanto mais previsível num primeiro momento, melhor. A gente vai introduzindo os elementos não previsíveis pouco a pouco, até que o indivíduo consiga, dentro da sua vivência, tolerar alguns estímulos não previsíveis.
🎵 Trilha de Transição 🎵
Pati: E o autista que gosta de rotina, que tem uma rigidez cognitiva muito forte. Como funciona a improvisação?
Gustavo: A própria improvisação, ela também tá dentro de um espectro, porque eu posso ter uma improvisação completamente livre, onde cada um toca o que quer, da forma que quer, mas eu posso ter uma determinada estrutura dentro dessa improvisação, onde a gente tem uma estrutura musical que se repete; então notas musicais ou acordes que sempre se repetem, a questão do ritmo que sempre se repete, o que ajuda na organização desse indivíduo.
Raíssa: Tem algum exemplo?
Gustavo: Quem nos escuta vai entender muito essa analogia que eu vou fazer agora. Todo mundo, ou imagino eu, já viu um piano ou um teclado, que ele tem teclas brancas e teclas pretas. Se eu toco apenas as teclas pretas, eu toco que a gente chama de escala pentatônica, que é uma escala de cinco sons, que é uma escala que tá tradicionalmente em todas as culturas, principalmente nas canções de ninar. E se eu proponho uma improvisação onde o indivíduo pode tocar livremente apenas as teclas pretas, eu acabo chegando num ponto muito interessante. Eu dou uma estrutura, eu dou uma rotina, mas eu digo para o indivíduo: dentro dessa rotina, você escolhe como que você faz essa rotina.
Pati: E precisa saber música?
Gustavo: A musicoterapia, ela só precisa de uma coisa, que a pessoa tenha interesse por música. Todo o resto, o musicoterapeuta, ele vai saber como conduzir, como facilitar.
🎵 Trilha de Transição 🎵
Raíssa: E fora o autismo? Também funciona para TDAH?
Gustavo: Nos últimos 5 anos isso mudou muito. Tem hoje um interesse muito grande da musicoterapia pela parte do TDAH, que aliás, inclusive, é a parte que eu sou responsável na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, onde eu trabalho, no sentido de atualizar a população. Então, o que é que eu tenho visto nos últimos anos? Na questão do TDAH, a música tem auxiliado muito para melhorar questões específicas de atenção, principalmente atenção sustentada, atenção dividida, que muitas vezes é a grande dificuldade para o indivíduo. Por quê? Porque a música, ela ativa o sistema nervoso central de uma outra maneira para que eu preste atenção em algo. A música, ela é processada centralmente na região temporal, dos dois lados próximos ao ouvido, onde, para que eu entenda o que acontece na música, eu tenho que prestar atenção no que tá acontecendo segundo por segundo.
Pati: Não distrai?
Gustavo: O que dificulta a vida, não só no caso do TDAH, mas da maioria das pessoas, é quando surge um estímulo musical novo. Então, o que é importante dentro do TDAH, se a pessoa quer utilizar música para se concentrar, para melhorar a sua atenção, inclusive a sua memorização, é que seja uma música totalmente previsível e repetitiva, para que aquele estímulo me ajude na concentração.
Raíssa: É só para crianças?
Gustavo: Não, não, com certeza não. O cérebro, ele nunca deixa de aprender. Então, o que é que os estudos têm mostrado? Que a música ela aparece na vida do adulto neurodivergente, principalmente nesse tripé; um primeiro tripé relacionado a parte de motivação ou o que a gente chama de autoeficácia, né? Que é aquela capacidade que eu tenho de saber que eu vou conseguir fazer alguma coisa, essa autoeficácia. Eu sei que eu consigo fazer algo. Então, a música na vida do adulto neurodivergente, ela acaba entrando muito dentro dessa vertente da autoeficácia e da motivação, porque a música me motiva a fazer algo que eu preciso. Então, muitas pessoas colocam música para treinar na academia, no carro, porque aquilo ajuda também na parte da motivação. Então esse, com certeza, é um dos três pilares importantes para o contexto da música na neurodivergência na vida adulta. Depois, com certeza, a gente tem a parte específica do enfrentamento, que a gente consegue ter resiliência também para enfrentar os desafios.
Pati: E para doenças neurológicas? Também funciona?
Gustavo: Com certeza, nós temos um grande conjunto de investigações tanto relacionados a Parkinson, Huntington, Alzheimer e outros tipos de de demência, assim como acidente vascular cerebral, afasia, em que a musicoterapia, o que é que ela faz dentro das diferentes condições e transtornos neurológicos? Ela auxilia ou a retardar um determinado efeito que pode aparecer seja de perda de memória, atenção, capacidade de motricidade ampla ou fina, assim como a própria fala, ou então a música influencia especificamente para uma melhora dessas capacidades.
Raíssa: Mesmo com tanta evidência, alguns médicos ainda a tratam como "hora de brincar". Por quê?
Gustavo: A indústria, os meios de comunicação, eles já têm uma tendência de tudo que aparece em relação à música, ou terapia associada à música, esteja associada a algo mais esotérico, num sentido muito pejorativo de que são pessoas que não estudam e que simplesmente fazem música de uma maneira não sistemática e não científica. Isso gera uma desconfiança porque não gera credibilidade. Se a gente for ver em congressos de autismo, quando tem algo relacionado à música, ou é alguém que muitas vezes ou não tem o preparo, ou não conhece, ou não são de fato investigadores e pesquisadores nesse campo, tendo publicações científicas a respeito. São pessoas que tem uma prática, mas não trazem esse embasamento científico que existe, ou então as pessoas da musicoterapia simplesmente não são convidadas para os eventos. Porque existe sim uma parte comercial que quer vender um determinado tipo de produto e temos, sim, algumas terapias que vendem mais.
Pati: Por fim, você tem algum recado final que gostaria de deixar para os nossos ouvintes?
Gustavo: No dia 7 de novembro de 2026 vai acontecer um dos maiores congressos de superdotação do Brasil, que é o Congresso de Superdotação do Estado do Rio de Janeiro. Esse congresso vai reunir os maiores especialistas em altas habilidades, superdotação, e vai ser uma oportunidade para a comunidade conhecer um pouco mais sobre essa parte específica da neurodivergência, que não é tão falada em comparação ao TDAH e ao autismo. E esse está sendo um ano muito importante para a superdotação e as altas habilidades porque no dia 17 de junho foi aprovada a Lei 15.436, que é a lei que agora regula as políticas públicas de altas habilidades e superdotação no Brasil.
Raíssa: Esse foi o Dr. Gustavo Gattino, musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, e pesquisador na Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Muito obrigada, Gustavo!
Gustavo: Muito obrigado pelo convite, pela oportunidade. Fico à disposição.
🎵 Encerramento🎵
Pati: O VideBula é uma produção original da Radioagência Nacional, um serviço público de mídia da EBC.
Raíssa: Idealizado e apresentado por mim, Raíssa Saraiva, e por Patrícia Serrão. Em Brasília, áudio de Rafael Thomaz.
Pati: Edição de Bia Arcoverde. Áudio e sonoplastia no Rio, Toni Godoy.
Raíssa: Compartilhe o episódio! Mande sugestões para videbula@ebc.com.br.
Pati: Episódios anteriores e conteúdo em Libras estão no YouTube e nos tocadores de áudio.
Raíssa: Por hoje é só! Para mais informações, VideBula!
🎵Vinheta de encerramento🎵
| Roteiro, entrevistas e apresentação | Patrícia Serrão e Raissa Saraiva |
| Coordenação de processos e supervisão | Beatriz Arcoverde |
| Identidade visual e design: | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Implementação na Web: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |
| Sonoplastia | Toni Godoy |
| Operação de Áudio | Rafael Thomaz (Brasília) |