Musicoterapia, busca pela autenticidade e a luta por reconhecimento
Neste quarto episódio da segunda temporada, o VideBula volta a falar sobre musicoterapia.

As apresentadoras Patrícia Serrão e Raíssa Saraiva continuam a conversa com o musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente e pesquisador na Universidade de Aalborg (Dinamarca), Gustavo Gattino.
Como dissemos na primeira parte sobre esse tema, a musicoterapia surgiu no século XX, como suporte a vítimas de guerra nos Estados Unidos. E é uma ciência que utiliza a música com objetivos não-musicais. Atualmente, é aplicada com sucesso como tratamento, reabilitação e até mesmo prevenção de diversas condições de saúde.
Nesta segunda parte, Gattino fala sobre o papel da musicoterapia na reabilitação de indivíduos que perderam alguma capacidade – de fala ou motora – em função de um acidente vascular cerebral, de um processo de degeneração ou até mesmo da demência.
O musicoterapeuta também destaca a importância da busca pela autenticidade de cada pessoa e explica como a improvisação, uma parte importante das sessões, atua no cérebro.
"O cérebro tem uma capacidade muito interessante: quando ele toca algo conhecido, ele vai ativar algumas regiões, principalmente dorsolaterais aqui do córtex frontal, mas relacionadas a tocar algo de memória, algo que eu conheço. E quando ele toca algo desconhecido ou numa primeira, segunda, terceira vez, ou quando eu ainda estou me acostumando com algo, ele ativa a região medial do córtex frontal, que está muito mais ligado a processos criativos. Isso faz com que o cérebro mude completamente a sua configuração quando alguém improvisa".
Por fim, Gustavo ainda demonstra uma preocupação com o que ele chama de relação "colonial ou até feudal" entre a medicina convencional e as terapias complementares.
"O musicoterapeuta não tem o mesmo peso de um profissional da área da medicina, seja um neuropediatra, um psiquiatra infantil ou outro profissional da área da medicina que trabalha especificamente nesse campo de contexto. Então, o que acaba acontecendo? Muitas vezes, um paciente dentro do espectro do autismo sai da musicoterapia, vai para um monte de horas dentro do contexto ABA, de uma outra terapia. E, na verdade, a gente tem uma piora do caso. Mas quem sou eu para contestar a opinião do doutor fulano? Ou quem sou eu para contestar um determinado profissional que tá lá no Instagram com vários vídeos falando daquela terapia que funciona? E ele sendo médico é isso que as pessoas querem e é aí que as pessoas vão acreditar".
Ouça a segunda parte da nossa conversa!
🎙️ Roteiro e apresentação: Patrícia Serrão e Raíssa Saraiva
✂️ Edição: Bia Arcoverde
🎵 Sonoplastia: Toni Godoy
📧 Contato: videbula@ebc.com.br
🎙️ VideBula é uma produção original da Radioagência Nacional, um serviço público de mídia da EBC.
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💬 Você pode conferir, no menu abaixo, a transcrição do episódio, a tradução em Libras e ouvir o podcast no Spotify,.
VideBula 2 – Episódio 4: Musicoterapia, Autenticidade e a Luta por Reconhecimento
🎵 ABERTURA – vinheta do VideBula 🎵
Pati: Oi, gente! VideBula no ar, seu podcast sobre saúde, direitos e inclusão sem barreiras.
Raíssa: Eu sou Raíssa Saraiva.
Pati: E eu sou Patrícia Serrão. No episódio passado, a gente conversou com o Dr. Gustavo Gattino, musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, e pesquisador na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, sobre o que é musicoterapia e como ela funciona para neurodivergentes.
Raíssa: Mas a entrevista rendeu tanto que a gente resolveu fazer uma parte dois. Hoje a gente vai falar das três vertentes da musicoterapia, da polêmica em torno de terapias como ABA, da dificuldade de ser ouvido quando você não é médico, e de como a indústria de pesquisa funciona como fast food.
Pati: Bora ouvir.
🎵 Trilha de transição🎵
Raíssa: Gustavo, a gente escuta que a musicoterapia é uma intervenção da área da saúde. Como funciona isso?
Gustavo: Nós comentamos que a musicoterapia, como intervenção terapêutica, ela pode trabalhar dentro da perspectiva de promoção da saúde, ou seja, é um terapeuta que vai oferecer uma terapia para ajudar esse indivíduo a ser mais saudável, a continuar se desenvolvendo e aumentar o seu bem-estar e a sua qualidade de vida.
Pati: E quando a gente fala em tratamento?
Gustavo: Ela também aparece dentro do que a gente chama de tratamento, que é de fato trabalhar em temas específicos, como melhorar a comunicação de um indivíduo, trabalhar questões de atenção, de memória, entre outras coisas.
Raíssa: Mas existe uma terceira possibilidade também, certo?
Gustavo: Eu ainda tenho uma terceira vertente, que é o que a gente chama de reabilitação. Especificamente, alguns indivíduos que perdem alguma capacidade, seja de fala, seja motora, a musicoterapia entra como uma intervenção de reabilitação para que o indivíduo possa readquirir uma função, uma habilidade que foi prejudicada em função de um acidente vascular cerebral, de um processo de degeneração ou até mesmo da demência.
🎵 Trilha de transição 🎵
Pati: A improvisação é uma parte importante da musicoterapia. Como o cérebro reage quando a gente improvisa?
Gustavo: O cérebro tem uma capacidade muito interessante: quando ele toca algo conhecido ele vai ativar algumas regiões, principalmente dorsolaterais aqui do córtex frontal, mas relacionadas a tocar algo de memória, algo que eu conheço. E quando ele toca algo desconhecido ou numa primeira, segunda, terceira vez, ou quando eu ainda estou me acostumando com algo, ele ativa a região medial do córtex frontal, que está muito mais ligado a processos criativos. Isso faz com que o cérebro mude completamente a sua configuração quando alguém improvisa.
Raíssa: Você contou pra gente um exemplo bem marcante dessas áreas diferentes do cérebro que são estimuladas.
Gustavo: Peguei um adolescente, não era neurodivergente, era um adolescente, que estava lidando com uma questão emocional do divórcio dos pais. Ele tocava acordeon, tocava sanfona, mas só sabia tocar música portuguesa. E um dia eu disse para ele: "vamos aprender a tocar blues, vamos aprender a tocar escala árabe, para ver como é que você se sente tocando coisas completamente diferentes, como é que é a sua reação emocional ao improvisar algo que não faz parte da sua cultura". Então, claro, aí primeiro tive que ensinar ele a tocar uma escala de blues, uma escala árabe, e depois a gente utilizou isso para que ele pudesse expressar como ele estava se sentindo a partir dessas escalas e foi muito interessante.
Pati: As sessões são sempre individuais?
Gustavo: As sessões de musicoterapia podem sim acontecer no formato individual, que aliás nesse momento é o que tem mais aparecido no Brasil, mas também a gente tem os atendimentos em grupo. Quando a musicoterapia surgiu num primeiro momento, a grande prática era no contexto de grupo, mas acabou que as pessoas ficaram muito impactadas com os atendimentos individuais e aí mudou-se de certa forma essa perspectiva.
Raíssa: E na vida adulta? A música ajuda nessa construção de identidade?
Gustavo: O indivíduo adulto começa de uma forma muito intensa na adolescência a ter a sua identidade influenciada pelo tipo de música que é escutada. Na vida adulta isso ganha um outro contexto: a música que eu escuto não fala apenas da minha identidade, mas fala das minhas crenças, daquilo que eu acredito, dentro de uma perspectiva da espiritualidade na forma que eu entendo que é estar nesse mundo.
Pati: Mas ainda falta pesquisa nessa faixa etária, né? A gente geralmente vê a musicoterapia muito associada a crianças.
Gustavo: Falta investigações nesse contexto. Hoje o público que eu mais me interesso na musicoterapia é justamente o público adulto dentro da neurodivergência, porque é aquele que tem menos informações. A gente ficou muito tempo centrado nos casos de autismo de nível de suporte 2 e 3, principalmente indivíduos não verbais, e a gente ainda tem toda uma caminhada importante para os indivíduos de nível de suporte 1, autistas adultos. Esses a gente precisa de mais e mais estudos.
🎵 Vinheta de transição 🎵
Raíssa: Algumas pessoas podem associar a musicoterapia, com essa pegada de intervenção terapêutica, como treinos que os neuroatípicos poderiam fazer, por exemplo, para se encaixar melhor nos ambientes.
Pati: Mas existe uma polêmica enorme em torno de terapias comportamentais para neurodivergentes, principalmente a ABA. Qual é a sua visão, Gustavo?
Gustavo: Algumas famílias colocam uma necessidade urgente de que o indivíduo desenvolva algumas habilidades, o que é muito importante, porque as famílias sabem que elas não são eternas. O indivíduo precisa de treinamentos em relação a habilidades adaptativas, comunicação, habilidades específicas de vida diária, regulação emocional, a parte social, porque isso vai auxiliar o indivíduo na questão da sua autonomia para que ele consiga, mesmo sem a presença dos familiares, dos pais, ele consiga responder no ambiente.
Raíssa: Mas essa adequação tem um lado problemático, né?
Gustavo: A gente tem uma outra perspectiva relacionada a isso. Será que muitas vezes o indivíduo gostaria de ter todo esse treinamento voltado a uma normatização, a uma perspectiva capacitista que muitas famílias procuram? Esses treinamentos, da forma que são conduzidos, desculpe o termo, acabam virando um adestramento.
Pati: Como assim adestramento? Explica melhor pra gente.
Gustavo: A pessoa não consegue responder de forma natural, de forma autêntica no ambiente porque ela foi treinada para responder de uma forma e a generalização não acontece. Muitas vezes o que existe é uma sobrecarga emocional e sensorial onde não existe a resposta da forma que o indivíduo gostaria que fosse.
Raíssa: É o tal do mascaramento, que a gente ouve falar?
Gustavo: Quanto mais eu me esforço para mascarar que eu consigo fazer uma determinada habilidade social e uma habilidade de comunicação, maior é o meltdown, maior é a desregulação e maior é a crise que esse indivíduo tem em termos emocionais e sensoriais para responder depois ao ambiente. Muito se utiliza o termo de uma ressaca sensorial e emocional que é causada pelo excesso de mascaramento.
Pati: E isso não é só no autismo, certo?
Gustavo: Isso aparece muito nas altas habilidades, na superdotação também, porque muitas vezes o indivíduo não consegue, no caso da superdotação, falar como é que ele gostaria de falar de um determinado assunto, porque pode parecer que ele tá sendo arrogante ou que ele tá querendo aparecer e na verdade é a forma que o cérebro dele funciona.
Raíssa: E qual deveria ser o princípio então?
Gustavo: Todas as terapias deveriam estar dentro de um contexto onde elas devem melhorar a qualidade de vida do indivíduo, mas nunca tirar dele a sua autenticidade. Isso faz com que nós tenhamos uma fábrica de indivíduos que recebem o mesmo tipo de terapia, mesma resposta.
🎵 Trilha de transição 🎵
Pati: Gustavo, você comentou algo muito forte com a gente: que existe meio que um pensamento bem restrito dentro das terapias para autismo.
Gustavo: Nas terapias no contexto do autismo, existe ainda uma relação de certa forma colonial ou até feudal. “O médico tal falou que precisa dessa, dessa e dessa terapia, não importa, eu vou fazer aquela terapia porque o médico é que recomendou”. E, muitas vezes, o indivíduo pode estar respondendo muito melhor em outras terapias que não foram indicadas por aquele médico e para a família isso não é importante.
Raíssa: É algo que acontece com a musicoterapia?
Gustavo: O musicoterapeuta não tem o mesmo peso de um profissional da área da medicina, seja um neuropediatra, um psiquiatra infantil, ou outro profissional da área da medicina que trabalha especificamente nesse campo de contexto. Então, o que que acaba acontecendo? Muitas vezes um paciente dentro do espectro do autismo sai da musicoterapia, vai para um monte de horas dentro do contexto ABA, de uma outra terapia. E na verdade, a gente tem uma piora do caso. Mas quem sou eu para contestar a opinião do doutor fulano? Ou quem sou eu para contestar um determinado profissional que tá lá no Instagram com vários vídeos falando daquela terapia que funciona? E ele sendo médico é isso que as pessoas querem e é aí que as pessoas vão acreditar.
Pati: Ou seja, vale mais quem fala do que a evidência.
Gustavo: A gente ainda tem uma relação colonial, uma relação feudal dentro desses conflitos de poder, onde o que é mais importante, muitas vezes, não é a questão da evidência e sim de quem fala ou quem transmite uma informação.
Raíssa: Gustavo, você comentou que a disputa entre as terapias para autismo pode ser desleal. Como funciona essa indústria?
Gustavo: Existe uma parte comercial que quer vender um determinado tipo de produto. Temos no nosso país algumas terapias que vendem mais, porque são aquelas que para fazer um estudo científico basta uma semana de intervenção, coloca ali uma observação de comportamento, algo rápido, e eu consigo publicar. Musicoterapia muitas vezes demora mais, porque por envolver música eu preciso de mais semanas para dar um retorno, para que os efeitos apareçam.
Pati: Mas as conclusões desses estudos são as mesmas?
Gustavo: A maioria desses estudos não fala qual é a possibilidade de generalização de que aquela aprendizagem vai aparecer mais tarde e principalmente o que a gente chama de follow-up, qual é a manutenção daquele efeito ao longo de meses e anos, isso dá trabalho. Então a indústria de investigação no autismo respeita a mesma lógica do fast food. Eu vou entregar algo que funciona, algo que as pessoas querem, mas em nenhum momento eu garanto uma durabilidade desses efeitos.
Raíssa: Os números também não ajudam, né? Quer dizer, imagino que seja muito mais fácil ter voluntários para estudos mais rápidos do que para pesquisas mais longas.
Gustavo: Estudos da área da medicina ou do ABA, ou estudos comportamentais de uma área geral, eles conseguem facilmente 500 mil participantes. Quanto mais participantes, mais fácil é conseguir um resultado estatisticamente significativo, mais fácil de publicar numa revista grande. Ao mesmo tempo, quem tá numa área que precisa de mais tempo para mostrar o efeito, que tem mais dificuldade de conseguir participantes, porque muita gente não quer participar de um estudo de musicoterapia, aí vai levar mais tempo para conseguir publicar aquele estudo.
Pati: Isso é muito desestimulante. Porque quem convive com uma doença rara ou uma neurodivergência sabe que quanto mais pesquisas forem feitas, mais estudos forem divulgados, melhor para a comunidade. São mais chances de qualidade de vida!
Raíssa: Dr. Gustavo Gattino, musicoterapeuta, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente, e pesquisador na Universidade de Aalborg, na Dinamarca, mais uma vez, muito obrigada pela sua participação.
🎵 Encerramento🎵
🎵 Trilha de fundo 🎵
Pati: O VideBula é uma produção original da Radioagência Nacional, um serviço público de mídia da EBC.
Raíssa: Idealizado e apresentado por mim, Raíssa Saraiva, e por Patrícia Serrão.
Pati: Edição de Bia Arcoverde. Áudio e sonoplastia no Rio, Toni Godoy.
Raíssa: Em Brasília, áudio de Jaime Batista.
Pati: Episódios anteriores e conteúdo em Libras estão no YouTube e nos tocadores de áudio.
Raíssa: Para mais informações, VideBula! Até a próxima.
🎵Vinheta de encerramento🎵
| Roteiro, entrevistas e apresentação | Patrícia Serrão e Raíssa Saraiva |
| Coordenação de processos e supervisão | Beatriz Arcoverde |
| Identidade visual e design: | Caroline Ramos |
| Interpretação em Libras: | Equipe EBC |
| Implementação na Web: | Beatriz Arcoverde e Lincoln Araújo |
| Sonoplastia | Toni Godoy |
| Operação de Áudio | Jaime Batista (Brasília) |