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Carnaval de rua contribui para apropriação de espaços públicos, diz pesquisador

  • 03/02/2016 05h49publicação
  • São Paulolocalização
Camila Maciel – Repórter da Agência Brasil

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Nos últimos dois anos, o número de blocos de rua que desfilam no carnaval paulistano cresceu aproximadamente 40%, segundo cadastro da prefeitura de São Paulo. Sem corda, grades ou abadá, a festa tem movimentado a cidade nas semanas que antecedem os dias oficiais do carnaval e começa a atrair mais foliões para o feriado. A estimativa do governo municipal é que 2 milhões participem das festas de 29 de janeiro a 14 de fevereiro. Somente no último fim de semana, mais de 400 mil pessoas acompanharam os blocos na capital paulistana.

O geógrafo Alessandro Dozena, autor do livro A Geografia do Samba na cidade de São Paulo, lembra que essa movimentação faz parte da história da capital paulista há décadas. Inicialmente com a opulência dos corsos, com o desfile de famílias ricas em carruagens; os cordões carnavalescos, com a presença marcante do bumbo; a extravagância das escolas de samba e, mais recentemente, a irreverência dos blocos de rua. Para ele, os blocos ganharam força nos últimos anos pela necessidade do paulistano de momentos de "expressão e manifestação de relações sociais”.

A Agência Brasil entrevistou o pesquisador para refletir sobre o atual momento do carnaval em São Paulo. Para ele, a festa é uma prática de resistência que contribui para a produção de outros modelos de vivências com a cidade.

“O carnaval de rua é acompanhado do improviso, da resistência às normas e ao que é disciplinador. Temos nele uma lógica da improvisação em que o ambiente urbano é apropriado e a espontaneidade permite um contraponto ao artificialismo da realidade cotidiana”, analisa.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: O aumento dos blocos de rua a cada ano tem se apresentado como uma novidade no carnaval paulistano. Como esse movimento se caracteriza e de que forma ele se vincula à história do carnaval em São Paulo?
Alessandro Dozena: O carnaval de rua paulistano faz parte da história da cidade, existe há décadas. Nos últimos anos, os blocos carnavalescos ganharam força em decorrência da necessidade da população paulistana por momentos de expressão e manifestação de relações sociais centradas na espontaneidade e na alegria, quando então é possível voltar a se apropriar das ruas do bairro, das praças públicas e de outros equipamentos públicos. Essa maior visibilidade dos blocos carnavalescos também se deve a algumas iniciativas postas pelos próprios foliões, a exemplo do Manifesto Carnavalista que, em 2013, contribuiu para a abertura do diálogo com a Secretaria Municipal de Cultura durante a gestão de Juca Ferreira.

Agência Brasil: Além do desfile das escolas de samba, temos uma maior presença de blocos de rua. O perfil do carnaval em São Paulo tem se alterado?
Dozena: Temos percebido não só uma maior presença como também uma maior diversidade de blocos de rua, o que tem acompanhado as inevitáveis mudanças ocorridas no carnaval e nas músicas tocadas pelos blocos. As músicas antigas costumam ser tocadas pelos blocos de rua, ao mesmo tempo em que motivam e celebram articulações com as músicas do presente. Isso acontece, por exemplo, no cordão carnavalesco Kolombolo Diá Piratininga, que valoriza sambas e marchas de compositores paulistas do passado, no Bloco do Sargento Pimenta, que transforma músicas dos Beatles em marchinhas, e no Bloco Domingo Ela Não Vai, que transforma sucessos do axé-music dos anos 90 em marchinhas de carnaval.

Agência Brasil: Há poucos anos, havia uma percepção de que as pessoas ficavam no carnaval em São Paulo apenas para descansar. O que explica essa onda carnavalesca na cidade?
Dozena: A transformação do carnaval faz parte de uma renovação que ocorreu e ainda ocorre. Por vezes, a nostalgia do passado desconsidera o movimento intrínseco presente na transformação do carnaval enquanto manifestação cultural; considerando o autêntico como um passado que sempre é melhor do que o presente. É preciso notar que as atividades promovidas pelos blocos carnavalescos ampliam o bem-estar em áreas carentes em infraestrutura culturais e de lazer. Essas manifestações sempre foram fundamentais para extravasar as amarguras do dia a dia, através de uma experiência coletiva importante para o estabelecimento dos valores culturais de um grupo social particular. Antigamente, a polícia ia, furava o couro e batia no pessoal. Mesmo assim, não conseguia acabar com as rodas de samba, cordões e blocos carnavalescos, que guardam um caráter espontâneo.

Também é preciso dizer que os cordões e blocos carnavalescos foram historicamente encarados com um viés preconceituoso e perseguidos implacavelmente pela polícia, que se esforçava para coibir os atos de “baderna”. Eu creio que a maior presença dos blocos de rua evidencia exatamente a prática de resistência à mercantilização da vida e a tudo o que tende a tornar a vida desprovida de magia, rotineira, mecanizada e administrada. A partir dos blocos espontâneos, o carnaval de rua impulsiona a criação, o inusitado, o novo. Imprescindível na inspiração de novas realidades, de novos cenários frente às dificuldades impostas pelas circunstâncias da vida em cidades como São Paulo.

Agência Brasil: São Paulo já foi nomeada de "túmulo do samba" por Vinícius de Moraes. Na sua avaliação, porque ele se referiu assim à cidade?
Dozena: Acredito que a afirmação tenha sido feita pela pouca atenção dada à história e força do samba e do carnaval paulistano, e também com um caráter de brincadeira. Sempre aconteceram trocas de informações entre sambistas e carnavalescos paulistas e cariocas no passado e ainda na atualidade acontecem. A afirmação sobre São Paulo ser o “túmulo do samba” e a “terra do trabalho” tornou-se popularizada pelo senso comum, fazendo com que vários compositores e intérpretes – entre eles, a cantora e compositora Leci Brandão - buscassem resgatar a importância do carnaval e do samba realizados em São Paulo. É interessante notar que não houve em São Paulo um movimento para a divulgação ou nacionalização do samba paulista, como o que ocorreu com o samba carioca a partir da década de 1930. Isso provavelmente se deve ao fato de o Rio de Janeiro ter sido a capital do país por um longo período, o que lhe proporcionou maior visibilidade. Além do mais, as escolas de samba de São Paulo adotaram o modelo de desfile carioca, o que embora não justifique, contribuiu para a formação de uma imagem de subserviência e inferioridade do samba e do carnaval paulistano em relação ao carioca.

Agência Brasil: Esse movimento de ocupação das ruas pelo carnaval em São Paulo pode contribuir para uma maior relação entre a cidade e os paulistanos?
Dozena: O carnaval de rua é acompanhado do improviso, da resistência às normas e ao que é disciplinador. Temos nele uma lógica da improvisação em que o ambiente urbano é apropriado e a espontaneidade permite um contraponto ao artificialismo da realidade cotidiana. O princípio do carnaval de rua é o da alegria, assegurando a utopia instantânea e fugaz, o convívio alegre, menos hierarquicamente arbitrário, menos tirânico e mais livre. Por isso, eu considero que o carnaval de rua possibilita a apropriação dos espaços públicos produzindo sentimentos de afeição identitária com os lugares, que são acompanhados de espontaneidade, de criatividade e sociabilidades, com a configuração de certas práticas sociais em que a vida momentaneamente se reinventa, seguindo a lógica do tempo festivo lento, criando-se novos discursos pela subversão da ordem, pelas resistências aos poderes que instituem e afirmam os territórios do poder, da disciplina, da administração e da burocracia. 

Edição: Lílian Beraldo