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Marcha no Rio pede o fim da morte de jovens negros nas comunidades

  • 22/08/2014 22h00publicação
  • Rio de Janeirolocalização
Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil

Movimentos sociais e parentes de jovens mortos nas comunidades do Rio de Janeiro fizeram manifestação em Manguinhos hoje (22), como parte do movimento 2ª Marcha (Inter)Nacional contra o Genocídio do Povo Negro. Depois de apresentações culturais e relatos emocionados cobrando o fim da impunidade dos assassinos, o grupo seguiu depois, em passeata, até a entrada da Favela da Grota, no Complexo do Alemão.

O estudante Paulo Ricardo Pinho de Menezes, 17 anos, é irmão do Paulo Roberto, morto em 17 de outubro do ano passado, em Manguinhos. Para ele, a marcha é uma forma de mostrar a indignação com os abusos cometidos pelas forças de segurança nas comunidades. “Assim não dá para ficar, quase todo mês morre um. E só jovem que não tem nada a ver, eu mesmo quase fui morto com o Jonatha;, os policiais começaram a dar tiro no meio da rua”, disse ele.

Jonathan de Oliveira de Lima foi morto em 14 de maio, em confronto com a polícia após uma manifestação, também em Manguinhos. A mãe dele, Ana Paula Gomes de Oliveira, lembra que quando o papa Francisco visitou a comunidade, no dia 25 de julho do ano passado, os moradores estenderam uma faixa com fotos de jovens mortos nas comunidades.

“O objetivo desse evento é dar um basta nessa coisa de genocídio, nessa morte de tantos jovens negros nas comunidades. É uma luta mesmo contra essa matança, porque o que mais a gente vê são os negros sendo mortos”, ressaltou.

Ana Paula diz que o inquérito sobre a morte de Jonathan foi concluído e encaminhado para o Ministério Público. Outra que aguarda Justiça é Maria de Fátima da Silva, mãe do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, morto no dia 22 de abril, no Morro do Pavão-Pavãozinho, zona sul do Rio de Janeiro.

Ela diz que o processo está parado na 13ª Delegacia de Polícia, já que não foram encontradas testemunhas dispostas a depor. Segundo ela, “não teve testemunha, as pessoas estão com medo de depor, então tem que ser na base do técnico, e o laudo técnico demora. As pessoas não vão testemunhar, porque os algozes do meu filho continuam trabalhando na UPP [Unidade de Polícia Pacificadora]”.

De acordo com Maria de Fátima, o laudo comprova que DG foi morto por um tiro, e não após uma queda, como chegou a ser divulgado na época. “O laudo dele está ali, ele tomou um tiro nas costas, a camisa dele não tem furo de tiro, está pelo avesso, ele estava molhado da cintura para cima, quando não choveu, a identidade dele estava toda enlameada, o passaporte todo enlameado. Agora estão invadindo o meu e-mail com ameaças, já dei queixa na delegacia de repressão a crimes de informática, me chamam de vadia, safada, dizem que sou íntima do delegado Gilberto, mas até agora não foi investigado”, relatou.

De acordo com a Polícia Civil, as investigações estão em andamento, e o delegado responsável pelo caso, Gilberto Ribeiro, só vai se pronunciar após concluir o inquérito. Acompanhando a marcha, o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rio de Janeiro (OAB/RJ), Aderson Bussinger, diz que a entidade foi acionada pelos familiares, que temem repressão. Segundo ele, a comissão recebe muitas denúncias de violências como desaparecimento e tortura, com mortes.

“Nós nos consideramos parte dessa luta, que é uma luta fundamentalmente de direitos humanos", disse ele, e acrescentou que "a gente ajuda nas investigações, nós procuramos o delegado de polícia responsável, procuramos o secretário de Segurança, promovemos audiências públicas sobre esse assunto lá, ouvimos familiares, registramos depoimentos, contatamos os órgãos internacionais, a ONU [Organização das Nações Unidas], esse trabalho institucional, e também nomeamos advogado se a família precisar”.

Integrante do Fórum Social de Manguinhos, o professor Leonardo Bueno, da Fiocruz, explica que a marcha reúne diversas entidades que lutam pela garantia de direitos, o que inclui o direito à vida. Manguinhos, segundo ele, "sempre foi o território onde esse direito foi mais violado no Rio de Janeiro e no Brasil. Então, houve essa articulação com uma série de favelas que estavam, sobretudo, falando da violência policial, e tinham jovens negros assassinados, que é a grande maioria. [O grupo] se articulou para fazer essa marcha, que é uma marcha nacional”.

Ele lembra que a comunidade de Manguinhos ficou conhecida como Faixa de Gaza, pela violência que ocorre lá, mas o fórum pretende mudar essa visão sobre o local. “A gente discorda. A gente está presente para dizer que a gente não é Faixa de Gaza. A gente não admite mais a violação ao direito à vida, o assassinato de jovens, e temos uma organização, um movimento social forte, que é o Fórum de Manguinhos, que pretende organizar muitos outros moradores. Tem 40 mil pessoas em Manguinhos, e estamos aqui para gritar e dizer que a gente não vai mais tolerar nenhum outro assassinato de jovem negro dentro da favela”, completou.

 

 

Edição: Stênio Ribeiro