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Fórum Social lembra “atingidos ocultos” do desastre de Mariana

  • 21/01/2016 12h32publicação
  • Porto Alegrelocalização
Camila Maciel* – Enviada Especial

 Consequências do crime ambiental de Mariana, durante o Fórum Social Temático (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Participantes debatem o tema Consequências do Crime Ambiental de Mariana, durante o Fórum Social TemáticoMarcelo Camargo/Agência Brasil

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) cobrou hoje (21) uma política nacional que defina quem são os afetados por desastres, como o que ocorreu em Mariana (MG). De acordo com a entidade, é a própria empresa que seleciona os que serão indenizados. Pescadores, agricultores, empreendedores de turismo são alguns dos moradores da região do município mineiro que, embora estejam na área afetada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, dizem não ser identificados como atingidos. O tema foi discutido hoje (21) em debate no Fórum Social Temático, em Porto Alegre.

Porto Alegre - Neudicléia Oliveira, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, debate as Consequências do crime ambiental de Mariana, no Fórum Social Temático (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Neudicléia Oliveira, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, debate as consequências da tragédia de Mariana, no Fórum Social TemáticoMarcelo Camargo/Agência Brasil

“Ao longo da bacia do Rio Doce tem os moradores que chamamos de 'atingidos ocultos', que viviam diretamente da água do rio. São pescadores, meeiros, posseiros, arrendatários, pessoas que plantavam e precisavam da irrigação, além dos veranistas que viviam do turismo e comércio”, citou Neudicléia Oliveira, da coordenação nacional do MAB. Segundo ela, essas pessoas passam por uma dupla violação de direitos. “Por um lado, são atingidos pela lama, pela água suja, e por outro, vão ter que provar legalmente que elas sofreram consequências pelo rompimento.”

Neudicléia lembrou ainda que as famílias pedem reassentamento e que, em alguns casos, as casas têm sido reformadas pela Samarco. “Há famílias que estão vivendo em hotéis, algumas que estão em apartamentos e outras que ainda vivem em área de risco, sem segurança alguma”, disse. Ela destacou que as comunidades, próximo à barragem de Germano, estão preocupadas com o risco de rompimento. “A empresa diz que daria tempo de alertar a população por conta das sirenes, mas a gente avalia que o tempo não seria suficiente”, acrescentou.

Memória

A presidenta da Central Única dos Trabalhadores (CUT) de Minas Gerais, Beatriz Cerqueira, falou da necessidade de pensar um novo modelo de mineração. “Se vocês observarem, os indicadores sociais de Mariana não correspondem ao fato de receberem mais recursos dos impostos da mineração. Esse modelo não repercute em desenvolvimento para a região para que as comunidades aturem esse tipo de violação”, destacou. Ela ressaltou ainda a necessidade de que o tema não deixe de ser debatido. “Conversem sobre Mariana. Essa é a forma de nós, pessoas comuns, fazermos com que memória dos oprimidos não seja apagada pelos opressores.”

Exposição

Na entrada do Auditório Araújo Viana, onde ocorreu o debate sobre o desastre ambiental em Mariana, uma exposição fotográfica mostra as imagens da lama que destruiu o distrito de Bento Rodrigues e que afetou também o município de Barra Longa. O fotógrafo paranaense Joka Madruga esteve na região durante 20 dias para fazer os registros. “O contato em Mariana foi difícil, porque a cidade depende da mineração, e as pessoas tem um relacionamento afetivo até com a Samarco. Algumas pessoas, inclusive, eram contra a empresa pagar pelo direito dos atingidos, pois poderia quebrar a Samarco”, relatou ele ao participar do debate e relembrar a experiência da região.

Samarco

A Samarco informou, por meio de nota, que 100% das pessoas desalojadas estão morando em casas. Segundo a empresa, no dia 23 de dezembro, todas as famílias de Mariana e Barra Longa já estavam instaladas em casas alugadas ou de parentes, com exceção de uma que optou por permanecer em hotel.

A mineradora disse ainda que um acordo parcial com o Ministério Público de Minas Gerais formalizou ações de assistência às famílias afetadas. Uma delas é o pagamento de uma antecipação de indenização no valor de R$ 100 mil para cada família de mortos e desaparecidos no acidente.

“A Samarco também se comprometeu a antecipar o valor de R$ 20 mil para cada família que tenha sofrido deslocamento físico, ou seja, que ficou desalojada. Foram R$ 10 mil não dedutíveis da indenização e outros R$ 10 mil em carácter de antecipação de indenização às famílias desalojadas. De um universo mapeado de 270 famílias nessa situação, 248 já receberam os valores”, diz a nota.

Sobre as atividades que envolvem o Rio Doce, a empresa disse que 1.456 pescadores e demais ribeirinhos receberam auxílio que contempla o pagamento mensal de um salário mínimo para a família, mais um adicional de 20% para cada dependente e cesta básica. Segundo a empresa, esse valor não representa indenização.

Em relação à produção rural, a Samarco disse que visitou mais de 170 donos de propriedades rurais de Mariana, Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado, em Minas Gerais. Nessas localidades, segundo a empresa, foram feitos cercamento de terrenos, reparação de vias de acesso e reposição de bens materiais. A iniciativa integra o Plano de Restabelecimento do Agronegócio, voltado para os agricultores e pecuaristas que foram impactados pelo acidente.

A empresa reafirmou ainda a segurança das estruturas das barragens. O monitoramento, segundo a nota da mineradora, é feito em tempo real por meio de radares e inspeções diárias, realizadas pela equipe técnica da empresa, além de drones, escaneamento a laser e instrumentação geotécnica.

 

*A matéria foi alterada às 12h09 do dia 22/01 para inclusão de resposta da Samarco

Edição: Talita Cavalcante