Digite sua busca e aperte enter

Compartilhar:

PUC-Rio é punida após casos de racismo nos Jogos Jurídicos

Publicado em 05/06/2018 - 16:22

Por Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil* Rio de Janeiro

A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) foi suspensa dos Jogos Jurídicos Estaduais de 2019, após casos de racismo durante uma competição esportiva no último fim de semana. A universidade também perdeu o título de campeã-geral e foi acionada para identificar os alunos envolvidos e promover educação antirracista na instituição.

Os episódios ocorreram durante a edição dos jogos em Petrópolis, na Região Serrana, e tornaram-se públicos depois de relatos de alunos nas redes sociais. De acordo com os relatos, os alvos eram os atletas negros e negras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Católica de Petrópolis (UCP).

No início da competição, no sábado (2), a campanha Jogos sem Racismo, que atua junto com a organização do Jogos Jurídicos, havia cobrado um posicionamento mais rigoroso, depois que uma casca de banana foi arremessada contra um atleta da UCP pela delegação da PUC-Rio. A punição foi uma multa de R$ 500 e a suspensão da torcida de um jogo, como exemplo, mas não adiantou. Os casos se agravaram no domingo, quando os coletivos universitários negros se uniram.

Nesse dia, após um jogo de basquete, a delegação da PUC-Rio imitou macacos para ofender estudantes da Uerj. Na final do handebol feminino, uma atleta da UFF foi chamada de macaca por outra universitária da Pontifícia Universidade Católica. Nas redes sociais, um universitário conta que estudantes ficaram ainda mais revoltados quando “uma menina da PUC vira para a gente e diz: Olha o meu rosto, você acha mesmo que vou ser presa?".

Os fatos estão sendo apurados pela 105ª Delegacia de Polícia, em Petrópolis. A Polícia Civil pede que as vítimas registrem ocorrência para posterior abertura de inquérito sobre os fatos.

Racismo recorrente

Os casos levaram os coletivos de estudantes negros Patrice Lumumba, da Uerj; Caó, da UFF; e Cláudia Silva Ferreira, da Faculdade de Direito da UFRJ, a se posicionarem. Eles cobraram uma série de medidas atendidas pela organização, como a suspensão da PUC-Rio das competições do ano que vem, a perda do título de campeã-geral e exigiram ainda que, durante o afastamento, a universidade católica faça um “intenso trabalho de didática antirracista”.

“Esperamos, ao menos, que essa dor descomunal se revele uma oportunidade para que todas as Faculdades de Direito repensem suas práticas”, afirmou a Jogos sem Racismo, em nota.

Uma das integrantes da campanha Mahara Vieira disse que os episódios levaram a questionamentos sobre a própria formação no Direito. Em tom de desabafo, ela lamentou o desfecho da competição. “Foi muito forte. Toda uma delegação aos prantos. A gente não conseguia comemorar. Viemos para nos divertir, todos nós, de todas as faculdades, mas não foi isso o que aconteceu, não foi assim que acabou. Achávamos que isso (o racismo) estava sendo superado, mesmo que de forma lenta e gradual, mas parece que houve retrocesso”.

Alunos negros da PUC

Formado por estudantes negros e negras da PUC-Rio, o Coletivo Nuvem Negra fez um ato hoje (6) no Centro Acadêmico do Direito, fixando cartazes, para visibilizar o ocorrido no fim de semana e exigindo medidas concretas. Um dos organizadores, o aluno Leonne Gabriel, disse que a PUC-Rio tem, na teoria, um discurso humanista. Porém, na prática, não acolhe alunos da mesma forma. “A universidade tem alunos negros, por uma série de políticas afirmativas, mas não faz uma campanha de igualdade racial sequer”.

Na avaliação do Nuvem Negra, enfrentar o racismo na instituição é uma necessidade. “Na medida em que instituições de ensino superior como a PUC-Rio se mostram incapazes de tomar medidas efetivamente antirracistas, elas não apenas banalizam as violências no cotidiano da educação superior como ainda legitimam o racismo que estrutura as instituições e as relações intersubjetivas para além dos muros da universidade”, afirmou, nas redes sociais.

O coletivo vem defendendo que a PUC incorpore disciplinas que tratem das relações etnorraciais de estudos africanos, além de contratar mais professores pretos e pardos.

Procurada pela reportagem, a PUC-Rio reencaminhou nota elaborada ontem informando que instalará comissão disciplinar para apurar o que aconteceu e identificar os responsáveis.

“Permanecemos fieis ao pioneirismo na promoção da diversidade e da igualdade racial, pois foi a PUC-Rio o berço dos pré-vestibulares comunitários para negros e carentes, a primeira instituição particular brasileira a instituir política de acesso e permanência de alunos negros e carentes, mediante concessão de bolsas de estudo, auxílio financeiro para custeio de despesas de bolsistas e a primeira instituição a oferecer disciplina na graduação sobre ações afirmativas”, diz a nota.

A Uerj, também em nota enviada à Agência Brasil, repudiou os casos e se colocou ao lado dos alunos atacados. “Considerando que racismo é crime, não podemos nos furtar de exigir a devida investigação desses fatos e rigorosa punição, devendo ser assegurada ampla defesa”, declarou, lembrando que a instituição foi pioneira na implantação das cotas.

*Colaborou Carol Barreto, repórter do Radiojornalismo

Edição: Denise Griesinger

Últimas