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Após um dia de ocupação, escola do Rio tem aulões e atividades

  • 15/04/2016 06h29publicação
  • Rio de Janeirolocalização
Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Alunos do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti ocupam a escola, no Largo do Machado (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Alunos do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti ocuparam a escola, construída em 1874, em apoio à greve dos professores, melhoria na infraestrutura e qualidade na educaçãoTomaz Silva/Agência Brasil

O Colégio Estadual Amaro Cavalcanti foi ocupado ontem (14) pelos estudantes. Localizada no Largo do Machado, no Catete, é a primeira escola da zona sul do Rio de Janeiro a entrar no movimento dos alunos em apoio à greve dos professores e por melhorias na infraestrutura e na qualidade da educação.

Com isso, passam de 40 as escolas ocupadas em todo o estado, segundo os cálculos do próprio movimento. A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) reconhece a ocupação de 36 unidades.

Após algumas semanas de conversa e debate, e com as aulas parcialmente interrompidas por causa da greve iniciada no dia 2 de março – que teve a adesão de 80% dos professores da unidade – os estudantes fizeram nessa quinta-feira assembleias pela manhã e pela tarde e farão também no turno da noite, “para consolidar a ocupação nos três turnos”, como explica Laís Gomes, 19 anos, aluna do primeiro ano noturno do Amaro.

Rio de Janeiro - Alunos do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti ocupam a escola, no Largo do Machado (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Entre as reivindicações estão melhorias na infraestrutura do prédioTomaz Silva/Agência Brasil

“É o começo da ocupação, mas a gente já conseguiu montar as comissões, tem a de limpeza, a que vai cuidar da alimentação da galera, a de comunicação, tem a comissão da estrutura, que vai ver como fica a luz, se apaga ou deixa acesa o tempo todo. Então a gente já está começando a encaminhar algumas coisas”.

Laís explica que cerca de 90 pessoas participaram da primeira assembleia e ficou decidido que eles irão “cuidar da escola, ocupar, dormir, fazer o nosso próprio alimento, cuidar das coisas”. Laís diz que os professores em greve também estão dispostos a ajudar, em um apoio mútuo às pautas dos dois movimentos.

Atividades e aulões

À tarde, estudantes e professores reuniram-se para organizar a ocupação. Professora de história do colégio, Fabíola Camargo explica que os jovens pediram que fossem montadas aulas abertas como parte das atividades.

“Vamos fazer uma dinâmica diferenciada desse currículo tradicional. Só os professores em greve que estão aqui apoiando o movimento. Outros passaram aqui mais cedo, estão ajudando, foram buscar comida. Agora estamos montando a pauta dos aulões, serão cine-debates no início. Mas também teremos outras dinâmicas, já conversamos sobre dança, música, nesta sexta-feira (15) a gente já começa com a aula sobre a ditadura militar e música popular brasileira”.

De acordo com Laís, os rumos do movimento ainda não foram definidos, mas a ideia é unificar a luta com as outras escolas ocupadas. “Vamos batalhar um comando de greve das escolas ocupadas, que a gente considera que é muito importante ter unidade junto com as outras escolas ocupadas, assim como foi em São Paulo, para a gente de fato ter uma vitória nas ocupações secundaristas aqui do Rio de Janeiro. Tem que ver como vai avançar a negociação com os estudantes”.

A estudante Laura Vitória Fraga dos Santos, 15 anos, do primeiro ano da tarde, diz que a maioria dos alunos apoia a greve dos professores, mas que existe a preocupação com o conteúdo que não está sendo dado. “Eu concordo plenamente com a greve dos professores, mas também estou preocupada de como que eu vou repor as minhas aulas. Meu primeiro ano na escola e estou até agora praticamente sem matéria nenhuma. Estou preocupada com o meu ano letivo. O pessoal do terceiro ano está desesperado, o Enem já tem data marcada”.

Laura afirma que a ocupação reivindica também melhores condições de infraestrutura, principalmente no que diz respeito à “sauna de aula”. “Tem gente que fala que se a pessoa quer estudar, ele vai estudar de qualquer jeito. Mas chega numa situação que não dá. A gente mora no Rio de Janeiro, é um calor de 38 graus, 40 graus, sensação térmica que chega a 55 graus. Como assim ficar 50 alunos dentro de uma sala com um ventilador funcionando?”

O prédio é histórico, uma placa no hall principal diz “No reinado de S.M. o Imperador S.R. D. Pedro II, o ministro e secretário de estado dos negócios do império conselheiro Dr. João Corrêa D Oliveira mandou fazer esta obra – 1874”. Antiga escola de ofícios do império, o colégio não tem ar-condicionado em nenhuma sala de aula e outros problemas estruturais, como necessidade de restauro nas janelas de madeira da fachada principal, fiação exposta, infiltração, falta de água e ventiladores que não funcionam. O C.E Amaro Cavalcanti tem atualmente 2.300 alunos.

Sopro de esperança

Rio de Janeiro - Alunos do Colégio Estadual Amaro Cavalcanti ocupam a escola, no Largo do Machado (Tomaz Silva/Agência Brasil)

No primeiro dia de ocupação, os alunos organizarão comissões e atividadesTomaz Silva/Agência Brasil

O professor de geografia do Amaro Daniel Carvalho Pacheco, diz que as ocupações por parte dos estudantes é reflexo de uma mobilização dos professores. “Há um ano nós estamos fazendo essa mobilização contrária à atual política desse governo, que a nosso ver é de sucateamento da educação pública. Você vê essa escola, por exemplo, é uma escola que fica na zona sul do Rio de Janeiro, uma região central. É tudo muito bonito por fora, mas por dentro falta tudo.”

Integrante do comando de greve dos professores, Pacheco lembra que os alunos apoiam a pauta pedagógica da categoria. “A gente quer que os funcionários da escola não sejam terceirizados, quer que sejam concursados com 30 horas semanais, que a merenda seja boa, eleição direta para a direção. Somos contrários à política meritocrática de avaliações externas, como Saerj [Sistema de Avaliação da Educação]. Então eu vejo de forma muito positiva, nos dá um sopro de esperança, a gente fica animado e quer conquistar mais vitórias”.

O técnico em informática Mauro Nunes integra a Associação de Pais de Alunos de Escolas da Rede Municipal e Estadual do Rio de Janeiro, uma organização ainda não formalizada, mas que, segundo ele, tem lutado por melhoria nas condições das escolas e, neste momento, tem visitado as ocupações para apoiar o movimento dos estudantes.

“Nós estamos apoiando integralmente, a gente entende que é o futuro dos nossos filhos que está em jogo. Nós fomos retirados das escolas, não fazem mais reunião com os pais, só havia, há algum tempo atrás, reuniões para quem recebe Bolsa Família. Agora acabaram e nós ficamos à mercê do estado”.

Seeduc

A Seeduc foi procurada e enviou a mesma resposta dada ontem à reportagem da Agência Brasil, apenas atualizando o número de escolas ocupadas, que segundo a secretaria atualmente são 36.  Segundo a nota, o secretário Antonio Vieira Neto já recebeu representantes de estudantes de colégios ocupados e do sindicato para discutir as reivindicações e algumas medidas serão tomadas “após a suspensão do movimento e liberação dos espaços”.

Edição: Fábio Massalli