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Ex-moradores da Vila Autódromo denunciam problemas em imóveis do Parque Carioca

  • 08/06/2015 18h42publicação
  • Rio de Janeirolocalização
Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil

Há quase uma semana do confronto entre moradores da Vila Autódromo e guardas municipais, em Jacarepaguá, perto da futura Vila Olímpica, a comunidade voltou a se mobilizar hoje (8). No local, denunciaram práticas da Procuradoria-Geral do Município, que, segundo eles, tem agido de forma inadequada com moradores, em negociações de desapropriação, e reclamaram que os imóveis do Parque Carioca – construído em parceria entre a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e a Caixa Econômica Federal, para onde muitos foram removidos – estão inabitáveis.

Motorista Ocimar da Silva Miranda, 46 anos, que mora com a mulher, duas filhas de 3 e 6 anos, em um cômodo de cerca de 60 metros quadrados na Vila Autódromo (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O motorista Ocimar da Silva, com a mulher e duas filhas de 3 e 6 anos, resiste a deixar a Vila Autódromo Tânia Rêgo/Agência Brasil

Na quarta-feira passada (3), a prefeitura tentou demolir uma casa onde moram cinco pessoas na Vila Autódromo, às margens da Lagoa de Jacarepaguá, contrariando decisão da Justiça, segundo a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. A família e os vizinhos restiram à demolição e várias pessoas acabaram feridas por cassetetes e balas de borracha.

A casa é do motorista Ocimar da Silva Miranda, de 46 anos, que mora com a mulher, duas filhas de 3 e 6 anos, além do pai, idoso, em um cômodo de cerca de 60 metros quadrados. Segundo a esposa dele, Melry Nascimento Brito, de 37 anos, a prefeitura oferece um valor muito baixo de indenização pelo imóvel, R$ 122 mil, e tenta coagir os moradores nas negociações.

“Eu não aceito esse valor. Eu pedi para ele [o procurador responsável por negociar a indenização dos imóveis] que me pagasse o justo, para que eu fosse para um lugar melhor. E ele respondeu que já estamos acostumados a morar em favela e que não faria diferença para nós”, contou. “Ele [o procurador] humilha as pessoas. Com esse valor eu não consigo comprar nada que dê para gente morar, nem perto nem longe daqui”, disse Melry.

O responsável pelas negociações é o procurador Marcelo Silva Marques, que não foi encontrado pela Agência Brasil. Em nota, a Procuradoria do Município negou que ele aplique critérios subjetivos na avaliação dos imóveis ou que tenha postura inadequada. “O laudo de avaliação dos imóveis para estabelecer o valor da indenização é feito por engenheiros e arquitetos especializados, com larga experiência em avaliações, e segue um padrão”, diz a nota.

Nascida na Vila Autódromo, Letícia Silva Alves, de 26 anos, ao contrário de Melry e Ocimar, aceitou trocar a casa na comunidade por um imóvel do Programa Minha Casa, Minha Vida, no Parque Carioca. No entanto, por causa de problemas estruturais no novo apartamento, com menos de seis meses, este ano ela voltou a morar com o pai e as duas filhas na vila.

“Peguei um apartamento de três quartos, sala, cozinha, banheiro e uma varanda pequenininha. Mas a obra é toda malfeita. No banheiro, está caindo reboco, está abrindo um buraco, no piso da cozinha está entrando água, estufou; e nos ralos entupidos, volta tudo, arroz, feijão; se fechar, sobe e faz um chafariz na pia mesmo”, contou Letícia, que não sabe a quem recorrer. A Caixa Econômica, responsável pelo empreendimento, nada esclareceu sobre os reparos – se vai fazê-los ou se estão sendo feitos.

Moradores da Vila Autódromo, na zona oeste da cidade, resistem a remoção de casas e se mobilizam para que novas violações de direitos não aconteçam no local (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Moradores da Vila Autódromo, na zona oeste do Rio,  resistem à remoção de suas casas e se mobilizam contra violações de direitos                                       Tânia Rêgo/Agência Brasil

Na Vila Autódromo, entre as 150 famílias que resistem – das cerca de 450 que habitavam o local – está a de Maria da Penha Macedo, de 50 anos. Ela foi uma das pessoas que acabaram machucadas no confronto da semana passada. Interveio por achar injusta a remoção da família do vizinho Ocimar. “Eram duas crianças e um idoso. Para onde eles iriam, de imediato?”, questionou.

Para Maria da Penha, que também não quer deixar a vila, o dinheiro das indenizações da prefeitura não compra outro lugar melhor para viver. “Estou acostumada a um conforto de quintal – na minha casa tem plantas frutíferas; pés de manga, goiaba, acerola, abacate; dá para tomar sol; ou seja, eu moro bem. Tenho minha casa, que construí com sacrifício. Por que tenho que sair para viver em um apartamento, onde não tem nem elevador?”, perguntou. E concluiu: “Tô velha”.

A Defensoria Pública acompanha as famílias e aguarda audiências com a prefeitura e a procuradoria no Tribunal de Justiça, para tentar regularizar a situação. Por enquanto, prevalece a decisão judicial, obtida pela Defensoria, que impede a destruição de qualquer casa na Vila Autódromo.

Edição: Stênio Ribeiro