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Profetas da chuva usam sinais da natureza para fazer previsões no Ceará

  • 09/01/2016 17h08publicação
  • Quixadá (Ceará)localização
Edwirges Nogueira – Correspondente da Agência Brasil/EBC
Otimista com a quadra chuvosa, Renato Lino de Souza mostra o caule da embiratanha, planta típica do Semiárido

Otimista, Renato de Souza mostra caule da embiratanha, planta que o ajuda nas previsõesEdwirges Nogueira – Correspondente da Agência Brasil/EBC

   

A natureza deu sinais diferentes para os profetas da chuva, homens e  mulheres do sertão que fazem previsões para o período das águas no Ceará, que vai de fevereiro a maio.

Antônio Lima, de 75 anos, chegou ao 20º Encontro dos Profetas da Chuva, em Quixadá, a 168 quilômetros da capital, Fortaleza, com uma casinha da maria e do joão-de-barro. "Se tiver inverno, a maria-de-barro faz a casa com um material que chuva nenhuma derruba", explica o profeta, mostrando a casa que trouxe como exemplo do que descreve.

Assim como Antônio, Renato Lino de Souza, de 68 anos, está otimista com a quadra chuvosa. Ele mostra o caule da embiratanha, uma planta típica do Semiárido que apresenta estrias grossas ao longo do seu tronco na época da seca. "Essa planta nasce em solo pedregoso e vive para dar sinal de que vai chover. Esses riscos eram bem largos, ela está cicatrizando", descreve.

Em Quixadá, a manhã deste sábado (9) foi nublada. Antônio olhava para o céu e descrevia as nuvens como um véu grosso, trazendo chuva do sul do Ceará para o sertão central. Segundo o calendário das chuvas do Ceará, divulgado pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), choveu hoje em 96 dos 184 municípios do estado. Para ele e tantos outros dos 30 profetas reunidos no encontro deste ano, a chuva dos últimos dias mostra que o "inverno" já chegou no Ceará.

No entanto, não é essa a opinião de outros profetas da chuva. João Américo da Costa, de 88 anos , mostra num banner fotos de um formigueiro no leito de um rio seco e a pouca floração do juazeiro. "Já está com três anos que esse formigueiro aparece na barreira do rio e nunca se acaba. A previsão é para um inverno muito fraco."

Enquanto o profeta Antônio Lima se alegra ao olhar o céu nublado, Paulo Costa de Oliveira, de 70 anos, enxerga além das nuvens e diz: "não teremos inverno, teremos chuvas isoladas e localizadas". Ele conta que observou o céu em setembro, na chamada Vigília de Noé, em que se considera a posição dos ventos, dos astros e a corrente de ar. "Este ano, por causa da Zona de Convergência Tropical, bolhas de ar quente que ficam no infinito, a frente fria não passa. Quando essas bolhas desaparecerem é que vai chover no Nordeste."

A população do Ceará aguarda uma boa quadra chuvosa há, pelo menos, cinco anos. O ano de 2015 foi considerado pela Funceme o quarto ano de seca seguida no estado. A fundação ainda não apresentou o prognóstico dos meses de fevereiro a maio, mas verificou ainda no ano passado que o fenômeno El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal no Oceano Pacífico Equatorial, poderia afetar de forma negativa o regime de chuvas em 2016.

A agricultura e a pecuária também esperam pelas chuvas. Em Riacho Verde, distrito de Quixadá, a chuva de 15 milímetros aferida pela Associação dos Agricultores animou a população. "Tem cantos em que a gente já pode até passar o trator para arar a terra", afirma o presidente da associação, Francisco Rodrigues.

José Andrade, secretário da Agricultura de Capistrano, município a 113 de Fortaleza, foi a Quixadá em busca de informações dos profetas da chuva para levar à sua região, uma vez que os agricultores consideram tais previsões para planejar o plantio.

"Eles acreditam mais nessa experiência que a natureza oferece do que no que os estudos meteorológicos apontam, pois cresceram acompanhando as experiências que os pais deles faziam." O secretário, porém, diz que fica no meio-termo. "Não é que as experiências dos profetas da chuva sejam enganosas, mas, em algumas coisas, a natureza já não responde mais como antigamente. Acredito que essa quadra chuvosa não será seca como aponta a Funceme. No entanto, também não será um inverno tão grande."

Edição: Nádia Franco