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“Branco Sai. Preto Fica” vence 11 prêmios no 47º Festival de Brasília

  • 24/09/2014 02h35publicação
  • Brasílialocalização
Marcelo Brandão - Repórter da Agência Brasil

 Premiação do Festival de Cinema, melhor longa Juri oficial, Branco sai, preto fica, de Adirley Queiros (Fabio Rodrigues Pozzebom /Agência Brasil)

Por decisão dos seis concorrentes, o prêmio de melhor filme, vencido por Branco Sai. Preto Fica, foi dividido igualmente entre os que disputaram o prêmioFabio Rodrigues Pozzebom /Agência Brasil

Ninguém frequentou mais o palco de premiação do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro do que o diretor Adirley Queirós, de Branco Sai. Preto Fica. Foram 11 prêmios no total, dentre eles melhor ator, com Marquim do Tropa; direção de arte, além de conquistar o Prêmio TV Brasil e conquistar o prêmio mais importante da noite, o de melhor filme pelo júri oficial.

A forte crítica social apresentada por Queirós conquistou público e jurados. O filme conta a história de vítimas do descaso social, tendo como pano de fundo um caso de agressão policial ocorrido na cidade de Ceilândia, no Distrito Federal. A história mistura documentário, ficção científica e vai além, expondo um futuro onde as desigualdades mostram-se cada vez mais cruéis.

Morador de Ceilândia, Queirós sempre retrata a cidade nos filmes que faz. "Tenho seis filmes feitos em Ceilândia, nos espaços que eu moro. O que me motiva a fazer filme é trabalhar com o espaço onde eu estou morando, com os amigos, pessoas dali”. Para ele, é importante abordar questões sociais em um país que as vive rotineiramente há décadas. “Não podemos negar que o Brasil é um país racista, territorialista e homofóbico. O filme lida com isso, como acho que vai lidar sempre com essas questões. Não existe uma mudança no país em relação a isso. É um problema muito sério que temos que colocar nos filmes”.

Questões semelhantes extrapolam as vividas no filme. Cercado de microfones e repórteres, o diretor aproveitou para criticar a falta de incentivo à cultura nas periferias. Ao mesmo tempo em que se mostrou feliz por participar do festival e ganhar o prêmio, viu barreiras na popularização da cultura em locais como a sua própria cidade.

“A Ceilândia é uma cidade com 600 mil habitantes e não tem uma sala de cinema. As periferias não têm salas de cinema. Como podemos criar público sem uma sala de cinema? Temos que olhar para isso de maneira urgente, não conseguimos um cinema nacional mais pungente porque não conseguimos chegar até a exibição. Festival é maravilhoso, mas só pode ter sentido para colocar questões. A partir daí temos que pensar em políticas públicas de cinema que, na minha cabeça, são salas de cinema públicas”, disse.

O ator Marquim do Tropa se mostrou surpreso com a recepção do público. “Geralmente é muito díficil um tema de crítica social conquistar a mente da galera”. Ele celebrou muito o Troféu Candango de melhor ator, conquistado após vários obstáculos. “Chegar aqui e arrastar um monte de prêmios é uma surpresa, porque, com tantos bons atores, eu consegui me sobressair sendo novato como protagonista. E fazer o filme foi um pouco difícil para mim. Tive que engordar 8 quilos, aprender a fumar e deixar o cabelo crescer estilo black, quando, na verdade, eu era careca”.

Escolhida a melhor atriz coadjuvante de longa-metragem do Festival, Élida Silpe, de Ela Volta na Quinta, não poderia estar mais surpresa. “Eu nem sou atriz!”, exclamou ao receber o Troféu Candango. O prêmio de melhor ator coadjuvante de longa-metragem foi para Renato Tavares, também de Ela Volta na Quinta.

A melhor atriz foi Dandara de Morais, de Ventos de Agosto, e Marcelo Pedroso, de Brasil S/A, levou o prêmio de melhor direção de longa-metragem. O melhor curta-metragem eleito pelo júri oficial foi Sem Coração, de Nara Normande e Tião. Na escolha do Júri Popular, o melhor curta-metragem foi Crônicas de uma Cidade Inventada, de Luísa Caetano.

Antes do anúncio do último prêmio, o de melhor filme, representantes dos seis longas-metragens concorrentes leram uma carta opondo-se à diferença de premiação entre melhor filme, que recebe R$ 250 mil, e outros prêmios, que levam entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Assim, os cineastas decidiram que o vencedor dividiria o prêmio em seis partes iguais entre os demais concorrentes da categoria.

“O clima de competitividade não acrescenta em nada ao festival. Quando se cria esse clima, se afasta a relação com as pessoas, cineastas, equipes, o que é o mais importante. Se tem um montante grande para pagar esse prêmio, que se pague as exibições, tanto de longa quanto de curta-metragem, e entregue um prêmio de 30 mil, 40 mil [para melhor filme]”, disse Queirós, o grande vencedor da noite.

Edição: Fábio Massalli