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Flip começa com debate sobre Mário de Andrade 

Publicado em 01/07/2015 - 23:13

Por Akemi Nitahara – Enviada Especial Paraty

Com o tema As Margens de Mário, a conferência de abertura da 13ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reuniu três autores que pesquisam a vida e a obra do ícone do modernismo brasileiro. O curador da Flip, Paulo Werneck, disse que esta edição da festa foi feita com muito amor para Mário de Andrade, respeitando a intimidade do poeta. "Mário é uma figura enorme, é uma esfinge que a gente decidiu não decifrar, mas conviver amorosamente com ele durante este ano todo”.

 As Margens de Mário, com os professores Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Sessão de abertura da Flip 2015 - Festa Literária Internacional de Paraty. Participam da mesa literária As Margens de Mário os professores Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim Tânia Rêgo/Agência Brasil

A argentina Beatriz Sarlo comparou o momento histórico vivido pelos dois países no surgimento do modernismo, com a Semana de Arte Moderna de 1922. Segundo ela, tanto o Brasil quanto a Argentina ainda não tinham o conceito de pátria definido e duas obras ajudaram a introjetar a identidade nacional nos dois países: Macunaíma, de Mário de Andrade, e Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes. "A geração paulista de 1922 e a geração argentina de 1920 são muito contemporâneas cronologicamente e também estavam saindo ao mesmo tempo os livros de Mário e de Güiraldes".

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Eliane Robert Moraes falou do aspecto erótico que permeia a obra de Mário de Andrade, desde as "brincadeiras" de Macunaíma, a fräulein de Amar, Verbo Intransitivo, a poesia e o que Mário chamava de "pornografia desorganizada", dispersa no bumba meu boi, nas modinhas, rapsódias e quadrinhas da cultura popular, que envolvem o proibido e o jogo de palavras sugestivas.

Ela destacou que, agora, os pesquisadores podem falar abertamente do que, por muito tempo, ficou como um tabu na vida e obra do modernista: a sexualidade. "Cabe a nós hoje falar o que ficou tanto tempo proibido. O nosso grande modernista Mário de Andrade era homossexual, era gay e há resquícios dessa homossexualidade em toda a obra dele”. Eliane, no entanto, ressaltou que, a partir dessa constatação, não se pode reduzir a obra do escritor à sua sexualidade. “Esse é o desafio que nos cabe hoje, e é nesse fio que temos que nos equilibrar, sabendo, como nos ensinou Mário, que o buraco sempre é mais embaixo".

Biógrafo de Mário de Andrade, Eduardo Jardim destacou a diversidade de gêneros literários e de atividades que Mário desenvolveu, indo do romance à poesia, passando por dramaturgia e ópera, além de ser um líder, agitador e também excepcional gestor na área cultural. "Vou citar uma carta que ele escreveu a Manuel Bandeira e que dizia: 'Manu, eu ficaria satisfeito e contente se as iniciativas que estou tomando no meu tempo fossem eficazes, não estou interessado em ser conhecido em 1985'. Bom, estamos aqui hoje desmentindo o poeta", diz Jardim, ao fazer referência à anulação do ego do poeta demonstrada na entrega que ele fazia aos trabalhos.

Após Roberto Saviano cancelar a participação na Flip, a organização anunciou hoje que a mesa que o italiano participaria passa a se chamar Jornalismo de Guerrilha, com os jornalistas mexicanos Ioan Grillo e Diego Osorno, especialistas na cobertura da guerra entre cartéis mexicanos de tráfico de droga.

Edição: Aécio Amado

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