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Ribeirinhos contam o trauma das sucessivas enchentes em municípios de Pernambuco

  • 29/06/2017 06h04publicação
  • Recifelocalização
Sumaia Villela – Repórter da Agência Brasil

A força da água da chuva causou estragos e deixou municípios em situação de emergência

A força da água da chuva causou estragos e deixou municípios em situação de emergência. No total 44 mil pessoas foram afetadas em todo o estado de Pernambuco Sumaia Villela/Agência Brasil

Ao longo dos rios da zona da mata sul de Pernambuco, a história dos ribeirinhos nas cidades atingidas pela cheia de maio tem um aspecto em comum: a repetição do trauma ao longo dos anos. Os invernos passam, e a realidade precária continua existindo nos mesmos lugares. São vidas encharcadas pelas sucessivas enchentes que levaram tudo – móveis, lembranças, animais, moradias e até mesmo a esperança de um futuro seguro. A chuva de maio afetou 44 mil pessoas em todo o estado.

A espera pela solução vinda do Poder Público ecoa nos testemunhos. Moradores esperaram pela casa prometida desde a inundação histórica de 2010, pela finalização das barragens de contenção da água, pela indenização que nunca foi oferecida como alternativa às casas perdidas, pela punição aos habitantes que usaram de forma irregular o imóvel que ganharam desde a última tragédia e pela próxima vez em que precisarão recomeçar a partir do que a água deixou para trás depois da devastação.

Tragédia anunciada

Da janela de casa, a costureira Zaneide Santiago Sampaio, de 42 anos, tem uma visão ampla da devastação à beira do Rio Panelas, em Catende, município cerca de 130 quilômetros do Recife. As moradias que ficavam no caminho para o curso d'água já não existem. A lembrança dos vizinhos ficou nos pisos dos imóveis, em poucas paredes pela metade, nos destroços de sofás e pertences menores espalhados em meio à lama.

Estragos da janela de Zaneide em Pernambuco

Destruição à beira do Rio Panelas, em Catende, município cerca de 130 quilômetros do Recife Sumaia Villela/Agência Brasil

Do lado de dentro da casa, a cheia também deixou sua marca na parede do primeiro andar, acima da altura da beliche onde seus filhos dormem; no barro que cobriu roupas, eletrodomésticos, armário, computador, instrumentos de trabalho e deixou três máquinas de costura profissionais inutilizadas.

“Pensei que não ia dar cheia, que o rio ia encher e secar, como sempre. Mas foi de repente. Quando eu fui guardar minhas coisas lá em cima, a água foi subindo e de repente eu fiquei presa. Minhas amigas ligaram para o Corpo de Bombeiros, que disse que não podia vir. Meu filho fez um buraco no telhado, subi, atravessei três casas, escalei uma parede para poder nos salvar”, relata, apontando para o caminho que percorreu.

Enquanto isso, seu marido, o motorista Adauto Ferreira da Silva, de 46 anos, tentava atravessar a cidade para resgatar a família. “No dia, foi muito desespero, porque eu tava do outro lado. Ela ligou para mim. Eu não conseguia passar, porque tava tudo cheio, de canto a canto. E eu me arrisquei, me joguei dentro do rio, a correnteza me levando, vim subindo em cima de poste, de árvore. Cheguei aqui ela tinha saído pelo telhado”, lembra ele.

Adauto aponta para a casa atingida pela chuva

Adauto, na rua desvastada, aponta para a casa atingida pela chuvaSumaia Villela/Agência Brasil

Com todos em segurança, havia ainda outra preocupação: a água que entrava nas casas pressionava as paredes e o telhado para seguir seu curso. Com um pedaço de ferro nas mãos, começou a quebrar os telhados da vizinhança para que o rio pudesse atravessar. “Quando eu comecei a tirar as telhas a água começou a descer”, diz Adauto. “Eu podia ter caído, morrido, mas na hora não pensei nisso”.

A costureira tem na memória a cheia de 2010. O volume da água ultrapassou o telhado do primeiro pavimento da casa – construído para tentar salvar os móveis de inundações. A casa foi comprada em 2002. “Na época, foi muito barato: R$ 4 mil, por causa da área próximo ao rio. Mas nunca tinha chegado água aqui, o povo disse que não ia encher porque construíram a barragem do Prata. Aí veio 2010.”

Há sete anos, no mês de junho, uma inundação de grandes proporções destruiu partes inteiras de cidades de Pernambuco e Alagoas. Foram mais de 80 mil desabrigados e desalojados pernambucanos, e mais de 100 mil alagoanos. Em Catende, uma das áreas mais atingidas foi justamente onde mora Zaneide. A ponte da rodovia PE-120, que fica próximo da casa da costureira, caiu e interrompeu completamente o fluxo de veículos. Os destroços ainda estão caídos no leito do rio, abaixo da estrutura reconstruída. Uma semana depois da nova cheia deste ano, uma montanha de lixo ficou presa nas vigas. Animais como cavalos e bois passaram direito, carregados pela água.

Para prevenir novas tragédias, os governos federal, estadual e municipais anunciaram à época uma série de ações. Duas delas trouxeram esperança para a família de Zaneide: a doação de casas em locais seguros para os ribeirinhos que sofreram com a enchente e a construção de um cinturão de cinco barragens que impediriam a elevação dos rios em caso de chuva forte.

As barragens diminuíram a preocupação da vizinhança. Como ela, muitos pensaram que tamanha inundação não se repetiria. Mas, segundo a costureira, continuar no local depois de 2010 não foi uma opção. Ela foi cadastrada para receber uma das moradias prometidas para os desabrigados da cheia, mas nunca foi “sorteada”. “Eu não sei o critério que usaram para dar as casas. Dois vizinhos da frente ganharam, eu não. Outras pessoas receberam casa, venderam ou alugaram e voltaram para a beira do rio. Um aqui na frente não quis a residência, resolveu ficar e agora a casa dele está no chão, perdeu tudo”, compara Zaneide.

Casas de lençol

Joselma e Gilvânia em abrigo no ginásio de esportes de município de Pernambuco

Joselma e Gilvânia com comprovante de cadastramento nas mãosSumaia Villela/Agência Brasil

O relato da casa nunca recebida se repete entre desabrigados que foram levados para ginásio de esportes da cidade. Joselma Gonçalves Do Santos, de 39 anos, e Gilvânia Medeiros Cavalcante, de 37 anos, contam que praticamente nada restou, apenas as tiras de papel onde se lia comprovante de cadastramento. Abaixo, nome completo, dados como CPF, número do formulário e assinatura do responsável. “Esse vestido aqui, a bolsa e o que tá aí dentro são doação. Eu só tirei os meus cachorros e alguns documentos”, diz Joselma.

As famílias que dividiam a quadra de esportes improvisaram “paredes” de lençóis em varais para delimitar o espaço de cada grupo e manter a privacidade. Dentro se viam um ou dois colchonetes, roupas, água, cadeiras e, aqui e ali, um fogão ou geladeira salvos da enchente. Perto da entrada um videogame Playstation 2 e uma televisão, também salvos da inundação, entretinham dois adolescentes.

Joelma disse que permaneceu no bairro onde morava de aluguel desde antes da cheia de 2010 porque era o que podia pagar. “Eu pagava R$ 150, em outro canto era R$ 300”. A renda da ex-trabalhadora rural vem do Bolsa Família, R$ 340. Segundo Joselma, há anos ela se dedica a cuidar da família. Seu marido tem um problema nos rins que o obriga a fazer hemodiálise três vezes por semana. A mãe dela tem deficiência visual.

“Não é fácil perder o que a pessoa tem e o que não tem. A vida foi mais importante. Os bens materiais a gente consegue de novo”, diz Joselma, que não tem esperança que uma nova moradia finalmente seja entregue. Para ela, a vida será assim: a água sobe, eles fogem. A água desce, eles voltam e tentam recomeçar.

Abrigo de lençol no ginásio de esportes de município de Pernambuco

Abrigo de lençol no Ginásio de Esportes de Catende, município de PernambucoSumaia Villela/Agência Brasil

Governo

Em eventos oficiais para falar dos danos causados pela enchente deste ano, o governo estadual destaca que a Operação Reconstrução, de 2010, da qual as casas fazem parte, foi um sucesso. Foram entregues 12.131 das cerca de 15 mil inicialmente previstas.

“Eu mesmo recebi relatos de famílias dizendo que perderam tudo e não tiveram acesso a uma nova moradia. Vamos analisar isso com muito cuidado e muita responsabilidade. A gente também recebeu muitos casos de pessoas que receberam casas, venderam e voltaram para as áreas ribeirinhas. A gente vai ter que atuar efetivamente, junto com os prefeitos, com o reordenamento nas cidades, porque não vamos permitir mais que pessoas voltem a colocar casas em áreas de risco, porque chover sempre vai chover”, disse o governador de Pernambuco, Paulo Câmara.

O secretário de Planejamento de Gestão, Márcio Steffani, destacou o sucesso da Operação Reconstrução e disse que são vários os motivos para a não entrega da totalidade dos imóveis prometidos. “Existem casas que foram invadidas ou que as construtoras não conseguiram concluir”. Há ainda escolas por fazer. Das 29 instituições de ensino que precisaram ser refeitas, oito ainda não foram concluídas. Ao todo, R$ 2,3 bilhões foram investidos na operação, em todas as áreas.

Procurado pela Agência Brasil para falar sobre as casas nunca entregues, o secretário de Governo de Catende, Alexandre Cavalcanti, inicialmente respondeu que as pessoas “não estavam falando a verdade”. Ao saber que as pessoas tinham comprovantes do cadastro, ele reconheceu que detectou “alguns casos” de pessoas que deveriam receber as casas, mas nunca conseguiram. “Porque essas casas na verdade foram usadas com instrumento de politicagem”, diz, se referindo à gestão anterior, que teria concedido o imóvel a pessoas que não precisavam.

O atual prefeito do município, Josibias Cavalcante (PSD), pai do secretário, era vice-prefeito no último mandato. Mas, segundo Alexandre, “quando viu que a coisa começou a descarrilhar, ele não vinha mais na prefeitura e não participava mais”. Depois, o vice concorreu a prefeito pela oposição e ganhou o pleito.

Questionado se foi apresentada denúncia a respeito da distribuição irregular dos imóveis, o secretário municipal de Governo disse que comunicou o fato à Defesa Civil de Pernambuco “para que tome as providências devidas”. A Coordenadoria de Defesa Civil do Estado de Pernambuco (Codecipe) diz, no entanto, que não recebeu qualquer denúncia de Catende. O coordenador do órgão, tenente-coronel Luiz Augusto, acrescentou que todas essas denúncias, quando chegam, são endereçadas à Caixa Econômica Federal, que é quem faz as demandas judiciais para reintegração de posse dessas casas.

A Caixa Econômica Federal foi procurada para responder se recebeu denúncias de esse e outros possíveis casos de mais municípios e que providências foram tomadas. No entanto, a nota enviada falou apenas de um caso específico de casas condenadas no município de Palmares, e não trouxe informações sobre essa questão.

Segundo levantamento dos prejuízos causados pela cheia de maio, feito pela prefeitura de Catende, pelo menos 160 casas foram totalmente destruídas, mais de 500 estão parcialmente rachadas ou sem telhado, e quase 1,2 mil sofreram avarias.

Veja mais detalhes do assunto no especial da Agência Brasil Vidas Inundadas.

Título alterado às 12h52 para esclarecer informação.

Edição: Talita Cavalcante