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Clima de confronto político é exacerbado no Haiti, diz general da Minustah

  • 29/01/2016 08h44publicação
  • Brasílialocalização
Marcelo Brandão – Repórter da Agência Brasil

General brasileiro Ajax Porto Pinheiro, comandante da Minustah no Haiti

General brasileiro Ajax Porto Pinheiro (ao centro), comandante da Minustah no Haiti, passa orientações para a tropaArquivo pessoal

O Haiti enfrenta um momento politicamente delicado. O atual presidente, Michel Martelly, já disse que deixará o poder no dia 7 de fevereiro. A esta altura, o haitiano já deveria ter escolhido o sucessor, mas uma série de manifestações e de acusações de fraude no primeiro turno das eleições provocou o adiamento do segundo turno por duas vezes.

As manifestações, convocadas pela oposição, exigiam também a renúncia dos membros do Conselho – organismo que, segundo os oposicionistas, favorece o candidato oficial. Cinco de seus nove integrantes já renunciaram. Um sexto membro foi suspenso sob acusação de corrupção.

Em meio a essas divergências políticas, as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), conhecidas como Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah), tentam manter a ordem, auxiliando as autoridades locais. Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, o general brasileiro Ajax Porto Pinheiro, comandante da Minustah desde outubro do ano passado, descreveu o turbulento cenário que vê nas ruas e na política haitiana.

“As manifestações políticas aqui são violentas, sempre foram. Para virar um conflito maior, é muito rápido. E no Haiti tudo pode mudar a qualquer hora”, explicou o comandante. Segundo ele, o adiamento do segundo turno das eleições, apesar de ser da vontade da oposição, trouxe mais tensão ao país. Em vez de conviver apenas com manifestações da oposição, o país enfrenta agora protestos contrários e favoráveis ao governo.

Protestos no Haiti

Indefinição política causa protestos no HaitiEPA/Bahare Khodabande/Agência Lusa

Agência Brasil - Como está o clima no Haiti neste período de crise política e eleitoral?
Ajax Porto Pinheiro - O clima de confrontação política no país é muito exacerbado. Eles não têm chegado a um acordo, as negociações estão em andamento. A oposição não queria que houvesse eleição, porque alega ter havido fraude. Nós da comunidade internacional achamos que a eleição de 25 de outubro foi normal. Mas hoje o clima de confrontação política é muito intenso e isso se reflete nas ruas. Os partidários da oposição e agora também os da situação estão indo para a rua fazer os seus protestos. E a possibilidade de um grupo se cruzar com o outro existe. E se isso acontecer logicamente haverá choque, porque as manifestações não são pacíficas. Eles queimam pneus, jogam pedras, bloqueiam ruas, estradas e isso tem se intensificado.

Agência Brasil - Então, o adiamento do segundo turno não diminui a tensão e a violência?
Pinheiro - Hoje [quinta-feira (28)], está tendo uma manifestação muito forte pró-governo, de 1,5 mil pessoas, e outras estão ocorrendo no país, menores. Mas essa é a rotina no Haiti nos últimos dias. Sábado (23), domingo (24) e segunda-feira (25) foram os dias mais preocupantes. Depois diminuiu um pouco a intensidade. Mas, agora surgiu uma situação que até antes das eleições não tínhamos. Agora, as manifestações são de ambos os lados, oposição e governo.

Agência Brasil - Quando vocês esperam que as manifestações violentas vão diminuir, uma vez que não há data para nova eleição?
Pinheiro - Acreditamos que em 7 de fevereiro, quando outro presidente assume. E aí será um mandato provisório, porque não houve eleição. Até lá esperamos muitos embates, tanto na rua quanto no campo político. Eles ainda não têm a definição de quem será esse presidente provisório. A única certeza é que o atual vai deixar o poder no dia 7. Dependendo do nome que surgir, as tensões podem diminuir, dependendo também da data do segundo turno, que também não se sabe. A ideia é que as eleições ocorram em meados de março ou em abril. Estamos na expectativa e ansiosos para que se chegue a um acordo político. Se não houver um consenso, esse clima de instabilidade pode se agravar.

Agência Brasil - Quais foram as situações mais tensas você viu?
Pinheiro - O clima mais tenso para nós foi no sábado, dia 23, após o adiamento, quando houve uma manifestação muito grande que chegou a 5 mil manifestantes, o que é muito grande para o país. Esse grupo de manifestantes se aproximou do Palácio da Justiça e do centro do poder nacional. Então, o batalhão foi preparado para apoiar a atuação da polícia. Felizmente não precisamos sair. Na quarta-feira (27), no Norte do país, houve um bloqueio de uma estrada, e a polícia não conseguiu controlar os manifestantes. Para liberar essa estrada eu tive que mandar uma tropa com blindados, uma tropa do Uruguai. Lá, eles liberaram as ruas. Às vezes, o manifestante não quer sair e começa a atirar pedra na tropa. E nessa hora as tropas usam armamento não letal. As manifestações políticas aqui são violentas, sempre foram. Para virar um conflito maior é muito rápido. E no Haiti tudo pode mudar a qualquer hora.

Agência Brasil - Como tem sido o trabalho da Minustah nesse contexto?
Pinheiro - O trabalho é coordenado com a polícia local. A ordem de emprego, na sequência, começa pela polícia do Haiti. Se ela sente que vai perder o controle, ela pede apoio da polícia fardada da ONU. Temos dez companhias de vários países e essas tropas são policiais. Seriam como o Bope [Batalhão de Operações Especiais] aí no Brasil. Quando eles sentem que também vão perder o controle, o Centro de Operações nos pede apoio. E nós vamos para lá, sempre sob meu comando. Assumimos a situação e vamos resolver o problema da nossa forma. A ordem é nunca, dentro do possível, provocar efeitos letais. Vamos nos blindados, que também é uma forma de intimidar quem queira reagir. Os soldados vão todos com colete, escudo, alguns com cassetete, proteção nos olhos, nas pernas e nos braços. E com equipamentos para esse tipo de operação, o gás, a bala de borracha, e a arma de choque.

Agência Brasil - Existe um prazo para a permanência da Minustah no país?
Pinheiro - As Nações Unidas querem diminuir [o trabalho] no Haiti, porque é consenso que aqui já se chegou a uma evolução tal que já permitiria diminuir os efetivos. O efetivo foi diminuído em julho passado. Hoje, estamos com 2.370 soldados nossos, de oito países. A ONU definiu que esse total fica até 15 de outubro, quando encerra o mandato anual. A partir de 16 de outubro é uma incógnita. Em março, viria a equipe da Missão de Avaliação Estratégica conversar conosco, preparar um relatório e entregar para o Conselho de Segurança da ONU em agosto. Então, o Conselho de Segurança teria tempo para decidir o rumo da missão. Mas com o adiamento das eleições, não temos certeza nem se esse calendário vai ser dessa forma. Ele foi baseado no pressuposto que em fevereiro assumiria um novo presidente eleito. Hoje tudo isso é incerto. A ONU está esperando o calendário eleitoral.

Porto Principe (Haiti) - Ruínas no bairro de Bel-Air

Ruínas no bairro de Bel-Air, em Porto Principe, capital do HaitiMarcello Casal Jr./Agência Brasil

Agência Brasil - Como o senhor avalia o trabalho da Minustah durante todos esses anos?
Pinheiro - A principal contribuição foi a estabilidade que foi adquirida, mesmo a gente falando nessa crise política atual. Em 2004, o Haiti chegava ao limite de uma guerra civil. Naquela época, cinco ou seis capitais foram conquistadas por rebeldes, que queriam derrubar o governo. Hoje em dia isso não existe mais. As gangues foram desfeitas, estão menos ameaçadoras. A polícia daqui foi equipada, reestruturada, melhor instruída pela ONU. A polícia local é composta de 11 mil militares, mas o ideal é chegar a 16 mil para dizer que eles podem cuidar do país deles. E esse é um sinal de que a ONU tem que ir embora. Em 2010 o país foi destruído [pelo terremoto]. Tudo veio abaixo e recomeçou do zero. Hoje, melhorou bastante em relação a 2010. A economia do país está progredindo, o turismo está, aos poucos, se tornando uma atividade rentável. A cidade está se arrumando, as ruas estão melhores. Ainda existem problemas, um dos maiores é que eles não têm energia elétrica. A energia é de usinas térmicas, o que é muito caro. Mas esse avanço todo só foi possível porque as Nações Unidas vieram para cá. E a reação da população com relação às tropas não mudou. Ela é muito bem aceita, assim como a própria missão como um todo.

Edição: Talita Cavalcante