Podcast | Histórias em pauta: grades de janeiro

O jornalista Alex Rodrigues conta como foi entrar no STF vandalizado

Publicado em 08/01/2024 - 21:00 Por Leyberson Pedrosa - Repórter da Radioagência Nacional - Brasília

Neste podcast original da Radioagência Nacional, a gente revive momentos marcantes de quem trabalha com a notícia e viveu uma situação que foi além da pauta.

No episódio, a gente conversou com Alex Rodrigues, jornalista da Agência Brasil. No dia 8 de janeiro de 2023, ele foi o primeiro profissional de comunicação a registrar a depredação que ocorreu dentro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Até chegar lá, ele vivenciou situações que não estavam na pauta como escalar grades de contenção.  Afinal, naquele fatídico dia, Alex estava de folga e só foi parar na Praça dos Três Poderes após fazer uma anedota sobre pneus furados e se incomodar com o voo rasante de helicópteros. 

🎞️ Versão em videocast

O episódio tem uma versão exclusiva em videocast com as imagens gravadas por Alex de dentro do STF, além de conteúdos complementares.

Abaixo é possível assistir os primeiros minutos do vídeo: 

A versão completa está disponível aqui no canal da Radioagência Nacional no Spotify.

🚧 🗓️ Grades de Janeiro

No dia 8, Alex Rodrigues estava de folga, mas bastante perto da praça dos Três Poderes.; Por curiosidade natural de jornalista e dever da profissão, ele avaliou que aquilo era notícia e foi até lá. Ao chegar até a lateral do STF, ele se viu ilhado entre manifestantes e agentes de segurança, chegando a ser agredido ao colocar seu crachá de jornalista. "A agressão eu sofro justamente quando eu finalmente preciso me identificar".

Então, Alex se afasta ainda mais e testemunha à distância o confronto entre as forças de segurança e os manifestantes.

O jornalista só decide entrar no prédio após perceber que a tensão tinha se voltado para o  outro lado da Praça dos Três Poderes, ou seja, para o Palácio do Planalto e Congresso Nacional.

"Começo filmando por fora e aí eu percebo uma das grades de segurança que tinha sido retirada possivelmente pelo primeiro grupo que invadiu o prédio, entre as várias coisas que eles arremessaram na rua, daquela de separação, de metal. E aí eu uso aquilo para conseguir subir."

Dentro do STF, e com o celular em mãos, Alex se impressionou com a dimensão do estrago:

"O dano era incomensurável, tem coisa que é difícil de transmitir no vídeo. Por exemplo, a sensação de caminhar com água quase que cobrindo os meu pés.Provavelmente, se fosse um carro ,  a seguradora teria dado outro. Só não deu perda total porque eles, felizmente, recuperaram [o STF]".

▶️ Quer saber mais? Clique no player acima e ouça a história completa.

Histórias em Pauta: além das grades

Sobe som 🎶  

Ley Pedrosa: Há um ano, uma horda enraivecida invadiu e vandalizou as sedes dos Três Poderes.

Sobe som 🎶  

Vozes: “Milhares e   milhares de pessoas. Pessoal, nós vencemos. O bem vence o mal

“Não quebrem”. “Pessoal, não quebra”.

 “Quebra, quebra”,“quebra tudo, quebra tudo”.

Ley Pedrosa: Diante desse bando, as vidraças do Planalto, as portas do Congresso e as contenções físicas do Supremo Tribunal Federal não conseguiram cumprir sua função básica: a de limita o acesso aos prédios públicos.

No entardecer, os vândalos saíam dos prédios invadidos. Pelo caminho, ficaram estilhaços de vidro, poltronas reviradas, documentos rasgados, entre tantos destroços 

 As grades de  contenção, que antes indicavam limites, haviam se transformado em rampas improvisadas.

Foi por uma delas que Alex alcançou o piso principal do STF .

Com o celular em mãos, ele atravessou as vidraças quebradas e, de dentro,  filmou rastros inéditos do vandalismo que tinha acabado de acontecer.

Alex Rodrigues: No primeiro momento eu não achei que fosse possível entrar no prédio, nem me ocorreu isso, eu estava só testemunhando a distância o confronto entre as forças de confronto entre as forças de segurança e os manifestantes.

Eu decido entrar porque eu percebo que toda a  tensão está voltada agora pro outro lado da Praça dos Três Poderes, ou seja, pro Palácio do Planalto e pro Congresso. Começo a rodear ali o prédio da STF, vindo do acesso da  praça, do estacionamento para entrada principal, começo filmando por fora e aí eu percebo uma das grades de segurança que tinha sido retirada possivelmente pelo primeiro grupo que invadiu o prédio, entre as várias coisas que eles arremessaram na rua, tinha uma grade de segurança daquela de separação, de metal. E aí eu uso aquilo para conseguir subir, pra conseguir…

Ley Pedrosa: Você escalou a grade…

Alex Rodrigues: É, eu escalei a grade pra ter acesso, porque…como eu tinha dito, é um pouco mais alto do que o nível do chão.

Ley Pedrosa: Mas não tinha uma polícia, não tinha nada?

Alex Rodrigues: Tinha, mas toda a atenção nesse momento estava voltada para o outro lado.

Ley Pedrosa: Olá, eu sou Ley Pedrosa e já estive por aqui contando outras histórias.

Neste novo podcast da Radioagência Nacional, a gente vai reviver momentos marcantes de quem trabalha com as notícias e viveu uma situação que foi além dos fatos. 

A gente conversou com o Alex Rodrigues, jornalista da Agência Brasil. 

Eu estou segurando um pouco pra chegar no dia 8, mas para  entender um pouco do Alex.   O Alex cobre jornalismo político, de rua, geral, desde quando?

Alex Rodrigues: Em geral, o que eu cubro um pouco mais é a questão de direitos humanos, e  também até essa ocasião eu vinha cobrando bastante segurança pública, inclusive quase que como setorista do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ley Pedrosa: alguma manifestação, evento nesse pregresso ao dia 8 de janeiro que você cobriu ou como segurança pública pela EBC, direitos humanos. Várias manifestações vem ocorrendo em Brasília desde 2013, né, por aí, né?

Alex Rodrigues: Desde sempre, né. Brasília, pela sua condição de capital e sede dos três poderes, ela é local para onde todas as manifestações afluem. Tô na EBC desde 2006, sempre na Agência Brasil, e desde 2006 é frequente a cobertura de manifestações e protestos no centro de Brasília. 

Ley Pedrosa: Você veio de onde?

Alex Rodrigues: Eu sou do litoral de São Paulo, sou da cidade de Santos.

Ley Pedrosa: O Alex foi um dos primeiros profissionais, se não o primeiro, a filmar a devastação de dentro do STF naquele oito de janeiro.

Me parece ser uma primeira imagem dentro do STF, né?

Alex Rodrigues: Eu arrisco dizer que foi a primeira imagem registrada, não a primeira que foi transmitida. O Marcos Lozekan, da Globo News, quando eu deixo o prédio, ele está chegando ao local, Inclusive ele fala comigo, ele conversa comigo se eu tinha tido acesso. [Ao] contrário de mim ele faz uma transmissão ao vivo de lá, poucos minutos antes da nossa entrada ao ar.

Ley Pedrosa: Qual foi a sensação que você teve ao fazer essas imagens naquele momento?

Alex Rodrigues: Ao chegar lá e me deparar com essas cenas, além de todo estrago material, de todo prejuízo material, a força simbólica da representação desse ato de violência é difícil de explicar. 

Ley Pedrosa: É bom lembrar que, séculos antes, o filósofo iluminista Montesquieu publicava o livro “Espírito das Leis”. Nessa obra, o teórico francês defendia um sistema de freios e contrapesos ao poder político de um povo.

Esse sistema é adotado até hoje na maioria das democracias ocidentais, inclusive o Brasil.  Nele, o Estado é dividido em três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. 

Cada um deles tem autonomia para exercer seu papel constitucional, ao mesmo tempo que é controlado pelos demais poderes. 

Do contrário, esse poder acabaria concentrado nas mãos de  algum tirano, que faria das leis e do povo o que quisesse… E isso quem disse foi Montesquieu.

Alex Rodrigues: O dano era incomensurável, tem coisas que é difícil de transmitir no vídeo, por exemplo, a sensação de caminhar com água quase que cobrindo o meu pé, por conta dos estragos feita o sistema, a parede já acondicionado que foi puxado, todo o sistema hidráulico ficou muita água, ficou acumulada.

Ley Pedrosa: Se fosse um carro, o STF, você acha que deu perda total naquele momento, olhando assim?

Alex Rodrigues: Eu só não diria que deu perda total, porque felizmente eles recuperaram, mas eu diria que teria sido um estrago muito grande, provavelmente se fosse um carro a seguradora teria dado outro e trocado e ficado, né.

PARTE 2: marcas em pauta

Ley Pedrosa: Antes daquele fatídico dia acabar, Alex se  olhou no espelho. Tinha os olhos ressecados pelo gás lacrimogêneo e um machucado no pescoço causado por um puxão em seu crachá de jornalista.

Alex Rodrigues: Então, quando eu chego, embora seja uma orientação e a gente sempre procura usar a identificação, eu não uso naquele momento  porque é preciso lembrar que nas manifestações anteriores a imprensa vinha sendo alvo de ataques. Inclusive,  você vai me perguntar sobre a agressão que eu sofri, a agressão eu sofro justamente quando eu finalmente preciso me identificar.

Ley Pedrosa: O mais curioso é que o Alex estava de folga no dia 8. E ele só foi parar no meio da horda após a anedota sobre um pneu furado e o barulho rasante de helicópteros.

Vamos começar pelo básico. Oito de janeiro. Começa pelo dia 7. O que você estava fazendo?

Alex Rodrigues: Sete de janeiro eu estava de plantão, estava na redação da Agência Brasil, onde eu passei a maior parte do dia. 

Ley Pedrosa: O que foi de notícia nesse dia, teve alguma coisa?

Alex Rodrigues: Então, eu não consigo me lembrar. É engraçado porque a impressão que eu tenho é que o dia 8 de janeiro posteriormente apagou tudo dos dias anteriores. 

Ley Pedrosa: Como se não tivesse acontecido 8 dias.

Alex Rodrigues: Exato, eu só lembro que eu trabalhei no dia 7, saí da redação tarde já, já à noite, e feliz de estar de folga no dia seguinte.

Ley Pedrosa: Você tinha feito alguma matéria nessa semana que antecede um pouco o dia 8?

Alex Rodrigues: Tinha feito matéria a respeito dos acampamentos diante dos quartéis. E é importante lembrar que a gente vinha de um momento de tensão muito grande. A gente já tinha tido a tentativa de invasão do edifício sede da PF na região central de Brasília no dia 12 de dezembro, o dia em que o presidente Lula foi diplomado, houve uma ameaça de explosão de uma bomba próximo ao aeroporto de Brasília no dia 24 de dezembro. nós estávamos vivendo um processo de transição de governo e em 1º de janeiro a gente tinha acompanhado a cerimônia de posse.

Ley Pedrosa: Mas aí você trabalhou, chegou em casa, beleza, “vou dormir”, acordou, chegou o dia 8. E aí, como foi o Alex no dia 8?

Alex Rodrigues: fala sobre como tudo começou com uma anedota, que estava de folga e porque foi parar lá.

Ele fala sobre a agressão que sofreu. O puxão do crachá.

Ley Pedrosa: é uma testemunha, uma testemunha de dados, de fatos. E aí o que você faria diferente naquele momento em termos de notícias?

Alex Rodrigues: É difícil dizer, né? Porque cada opção vai resultar em novas circunstâncias que vão gerar outros sucessos e outras insatisfações, por exemplo. Eu gostaria de ter percebido que era o coronel Fabio Augusto que estava deixando o local por conta de tudo o que que ocorreu depois. 

Então, provavelmente se naquele momento que eu estivesse chegando eu tivesse percebido que era o coronel Fábio Augusto. Se eu tivesse ido atrás dele e tentando ouvi-lo em vez de me dirigir para lá. E aí certamente não teria testemunhado tudo que eu testemunhei no STF e talvez não tivesse feito essas imagens. É muito difícil de dizer, né?

Ley Pedrosa: No dia seguinte aos atos golpistas, o mesmo Alex assistia na tevê um movimento contrário à horda que testemunhou. Uma aliança entre representantes da República. 

Ao lado do executivo, seguiam integrantes do parlamento e do próprio Judiciário. Entre eles, a ministra Rosa Weber, então presidente do STF.

As grades haviam caído. Mas a Democracia, amparada pelos três poderes, permanecia firme e resiliente. 

Sobe som 🎶  

Historias em Pauta: grades de janeiro termina aqui. A ideia, roteiro , montagem multimídia e apresentação são minhas, Ley Pedrosa.

A coordenação de processos e edição é da Bia Arcoverde. Toda a identidade visual ficou por conta da Caroline Ramos.

Sobe som 🎶  

Gostou? Então, a gente te convida a ouvir os outros podcasts originais da Radioagencia Nacional. A dica de hoje é o Histórias Raras que, em ano bissexto,  terá uma nova temporada. 

 Sobe som 🎶  

Em breve
 

 

Ideia, roteiro , montagem multimídia e apresentação

Ley Pedrosa
Coordenação de Processos e edição Beatriz Arcoverde
Identidade visual e design: Caroline Ramos
Implementação na Web: Beatriz Arcoverde e Leyberson Pedrosa
Interpretação em Libras: Equipe EBC
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   

 

Quer saber mais sobre o tema? Confira o Caminhos da Reportagem, produzido pela  TV Brasil e a série de entrevistas da Agência Brasil. 

 

 

Edição: Beatriz Arcoverde

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