Cultura negra: a essência do samba carioca

Publicado em 25/02/2014 - 15:43 Por Flávia Villela - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro

Banner - Cor e ritmo do carnaval

 

A Agência Brasil, em parceria com a Rádio Nacional e a TV Brasil, inicia hoje (25) série sobre a influência da cultura negra no carnaval brasileiro. As equipes visitaram cinco cidades – Rio de Janeiro, Salvador, São Luís, Florianópolis e Recife – para mostrar como a música, o ritmo e a arte do povo negro inspiraram a festa mais popular do país. A primeira reportagem retrata a importância dos negros no surgimento do samba no Rio.

O samba carioca surgiu efetivamente na década de 1920. Nasceu na Praça Onze, reduto de descendentes de escravos. A casa de Tia Ciata, mãe de santo e cozinheira, era o ponto de encontro dos artistas da comunidade que tocavam ritmos da mãe África e onde foi composto o primeiro samba gravado, em 1916: Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, como relata o livro A História do Carnaval Carioca, de Eneida de Moraes.

No início, os cordões tinham grupos de mascarados e uma orquestra de percussão, depois, surgiram porta-estandarte e mestre-sala. A primeira escola de samba, Deixa Falar, foi criada em 1928, no Estácio, bairro boêmio. E o primeiro desfile oficial de escolas de samba, na própria Praça Onze, foi em 1933.

“A cultura negra é a mãe da nossa cultura rítmica. O tempo rítmico par, dois por quatro do surdo, um instrumento fundamental da nossa bateria na escola de samba, faz parte do toque dos orixás, da África”, argumenta o radialista Adelzon Alves, especialista em samba.

Na época, os desfiles não eram bem-vistos pela elite e mídia. “Era comum a polícia invadir os desfiles. Diziam que eram vagabundos [os sambistas]. Certa vez, Cartola, para garantir o desfile da Mangueira, convidou o pessoal da Casa da Moeda, todos de terno. Quando a polícia chegou, viu os documentos e recuou. Os sambistas tiveram que provar que samba era cultura”, conta o compositor, radialista e pesquisador da cultura negra Rubem Confete, autor do enredo vencedor do carnaval de 1973, Uma Certa Negra Fulô, da escola paulista Camisa Verde e Branco.

Somente 40 anos depois dos primeiros desfiles, os sambas-enredo começaram a narrar a cultura negra. O jornalista, compositor e pesquisador da Música Popular Brasileira Sérgio Cabral lembra que até o fim dos anos 50 os contemplados eram personalidades da história oficial. “Figuras como Duque de Caxias, figuras da história. Depois, os enredos foram ficando mais progressistas”.

 

Trem do Samba

Escolas de samba comemoram o Dia Nacional do SambaArquivo/Agência Brasil

No início, os negros usavam perucas brancas, roupas com estilo europeu do século 18 e retratavam personagens que nem conheciam, explica o historiador e pesquisador da Música Popular Brasileira Ricardo Cravo Albin. “A partir dos anos de 1960, os desfilantes passaram a se auto referenciar, a homenagear a multidão que fazia a escola de samba e nunca era homenageada”.

Um dos pioneiros nos enredos sobre personagens da história negra foi o carnavalesco Fernando Pamplona. Em 1960, ele contou a história de Zumbi dos Palmares. “Além de Zumbi dos Palmares, Xica da Silva, Chico Rei são alguns enredos em que ele conta uma história do negro que não era contada. Até o próprio negro desconhecia”, destaca Rubem Confete.

Três anos depois, foi a vez de Pamplona e Arlindo Rodrigues marcarem época com o enredo Xica da Silva, com música composta por Anescar do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira. O samba resultou na primeira capa de manchete da revista Destaque, imortalizou Isabel Valença como intérprete principal, e ganhou prêmio do Theatro Municipal.

A história da escrava alforriada que se torna amante de um comprador de diamantes impactou quem assistiu ao desfile do Salgueiro, na Presidente Vargas, novo palco do carnaval na época. “Xica da Silva foi um enredo espetacular. A partir daí, o Salgueiro e outras escolas passaram a homenagear com frequência a cultura e a arte negras, seus personagens e definições”, lembra Albin.

“Finalmente, foram referenciados, reverenciados aqueles responsáveis pelo carnaval, que faziam a escola de samba ”.

Outros sambas marcantes foram Navio Negreiro, de Amado Régis e Djalma Sabiá, do Salgueiro (1957); o Negro na Senzala, de Darcy da Mangueira, da Unidos da Tijuca (1958); Leilão de Escravos, de Cici, Mauro Afonso e Urgel de Castro, da Unidos da Tijuca (1961); Magia Africana No Brasil e Seus Mistérios, de Gambazinho, da Unidos da Tijuca (1975); Sublime Pergaminho, de Carlinhos Madrugada, Nilton Russo e Zeca Melodia, da Unidos de Lucas (1968); Heróis da Liberdade, de Mano Décio da Viola, Manoel Ferreira e Silas de Oliveira, do Império Serrano (1969) e Valongo, de Djalma Sabiá, do Salgueiro (1976).

Para Albin, a explosão da negritude viria em 1988, com o desfile da Vila Isabel em homenagem a Zumbi dos Palmares - Kizomba, a Festa da Raça, vencedor do carnaval daquele ano. Temas como o apartheid na África do Sul, a abolição da escravatura, expressões do candomblé e rituais da cultura negra são citados na música. “Foi o desfile mais bonito de todos que assisti. E olha que assisto há 42 anos ininterruptos os desfiles das escolas de samba, tanto o samba quanto o desfile”, relembra.

Edição: Carolina Pimentel

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