Bloco Pena de Pavão de Krishna faz desfile espiritual em comunidade mineira

No bloco, que surgiu em 2013, os foliões pintam seus rostos de azul em

Publicado em 26/02/2017 - 16:55 Por Léo Rodrigues - Correspondente da Agência Brasil - Belo Horizonte

Belo Horizonte - Bloco Pena de Pavão de Krishna faz desfile espiritual em Minas Gerais (Léo Rodrigues/Agência Brasil)

Bloco Pena de Pavão de Krishna faz desfile espiritual em Minas Gerais             Léo Rodrigues/Agência Brasil

Um dos blocos tradicionais do carnaval de Belo Horizonte, o Pena de Pavão de Krishna decidiu levar seu desfile deste ano para uma comunidade fora da cidade. A folia aconteceu na tarde de hoje (26), a 45 quilômetros da capital mineira, no distrito de Morro Vermelho, município da histórica Caeté (MG).

Para facilitar o acesso, os organizadores do bloco ofereceram ônibus para transporte de ida de volta para cerca de 500 foliões, ao custo unitário de R$ 20. Na página do bloco também havia ofertas de caronas para que todos os interessados pudessem chegar ao desfile. A comunidade recebeu grande número de carros.

No Pena de Pavão de Krishna, ou simplesmente PPK, os foliões pintam seus rostos de azul em referência à divindade hindu Krishna. O bloco surgiu em 2013, com a proposta de fazer um desfile mais espiritualizado, com mensagem de amor e paz.

"Tem pessoas que são hare krishna, budistas ou ligadas à ioga; outras mais próximas ao candomblé; e tem aqueles como eu, que me entendo como místico, no sentido de que possuo espiritualidade, mas não tenho exatamente uma religião. Mas todo mundo é muito ligado à questão da sacralidade. Tanto que o bloco medita antes de começar. Tem gente que chega mais cedo para praticar ioga", diz Rafael Fares, um dos integrantes do PPK.

Misturando as culturas afro-brasileira e indiana, o desfile se desenvolve ao som de afoxé. O ponto alto é a execução do hino do bloco, a música Aflorou, que traz as estrofes: "é belô, afoxé, todo mundo andando a pé. No carnaval, te conheci, transcendental, te seguir".

O nome do bloco foi extraído de uma estrofe da canção Trilhos Urbanos, de Caetano Veloso. O músico é inclusive outra referência, assim como Gilberto Gil. "Além dessa religiosidade, é importante destacar que o bloco é tropicalista. Estamos bebendo em diversas fontes culturais, e não estamos preocupados com isso. Somos indianos, africanos, indígenas, é a mais pura antropofagia brasileira. É algo que considero muito bonito, as pessoas vestidas das mais diferentes formas", acrescenta Rafael Fares.

Apesar da distância para chegar ao local, a arquiteta Mariana Borges e o economista Guilherme Ottoni acharam que o esforço foi recompensado. Eles participaram do Pena de Pavão de Krishna pela primeira vez, e capricharam na produção. "Trouxemos alguns adereços. Mas, curiosamente, compramos a tinta e esquecemos de trazer. Felizmente contamos com a solidariedade e as pessoas nos emprestaram para podermos nos colorir de azul", disse Guilherme.

Água

Assim como outros grupos vinculados à retomada dos  blocos de rua em Belo Horizonte, o Pena de Pavão de Krishna traz consigo questões sociopolíticas. Seu desfile é itinerante, ocorrendo a cada ano em local diferente; na maioria das vezes em regiões periféricas. Em 2014, os foliões desfilaram no Jardim América, na região oeste da capital mineira; e em 2015, na Lagoinha, região noroeste. No ano passado, o desfile ocorreu no bairro Jardim Pirineus, na região leste.

A escolha do local é consequência do tema definido para cada ano. Nesta edição, a decisão de mudar de cidade teve como objetivo saudar os mananciais aquáticos do estado. Na espiritualidade dos integrantes do bloco, a água surge como elemento importante. E Morro Vermelho está localizada na Serra do Gandarela, uma área remanescente de Mata Atlântica – um grande reservatório de mananciais, nascentes e cachoeiras.

"A ideia surgiu a partir da tragédia de Mariana, um crime ambiental que poluiu a bacia do Rio Doce. Foi algo que nos sensibilizou. E a Serra do Gandarela desperta constantemente o interesse de empresas de mineração", diz Rafael Fares.

O folião destaca, porém, que a ideia é trabalhar a espiritualidade do local. "Não viemos para fazer discurso e falar mal da mineração. A proposta é saudar as águas. É também uma região onde viveram muitos escravos, muitos índios, e hoje não há registro nenhum disso. Foram todos massacrados. Então, saudamos as águas e os ancestrais que moravam aqui", acrescenta.

Curiosamente, o desfile foi acompanhado de períodos intermitentes de chuva intensa. Mas nada que desanimasse os foliões, que consideraram benéfica a água que chegava do céu. Moradores locais também se contagiaram, como Gersilene Martins, que acompanhou o cortejo da porta de casa. "Estou achando maravilhoso. Nós nunca tivemos desfile de carnaval aqui. Está lindo. Nem a chuva atrapalhou a alegria do povo. E se vê que são pessoas ótimas que vieram, todo mundo tranquilo, sem nenhuma confusão".

Edição: Stênio Ribeiro

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