Coronavírus afeta variação nos preços do barril de petróleo no mundo

Oferta vem crescendo mais que demanda, diz pequisador

Publicado em 12/03/2020 - 11:01 Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro

A turbulência dos preços do barril do petróleo esta semana é uma consequência de um cenário que vem se construindo desde meados do ano passado, embora não com a velocidade e a violência que se nota agora, a partir da pandemia do coronavírus. A análise foi feita à Agência Brasil pelo pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP), Henrique Jager.

“Desde meados do ano passado, o preço do barril do petróleo vem se apresentando com alta volatilidade e uma tendência de queda, por conta de uma percepção do mercado de que a oferta estava crescendo em um ritmo maior do que a demanda”, disse o pesquisador.

Segundo pesquisador, esse movimento pode ser atribuído ao incremento da pesquisa e exploração do petróleo ocorrido entre 2005/2008, levando o preço do barril do produto a atingir, em 2010, perto de US$ 140. A consequência foi o aumento na oferta.

China

Outro fator que impactou no mercado internacional de petróleo foi a China, grande importadora de petróleo no mundo, cuja economia vinha evoluindo à taxa de 9% ou 10% ao ano e reduziu para 5% a 6% ao ano. “E agora, com o coronavírus, no primeiro trimestre de 2020, as estimativas são de redução da ordem de 20% no consumo do maior importador de petróleo”. Jager acrescentou que, no Japão, a redução da demanda no curto prazo deve alcançar quase 10%. “Claro que isso tem impacto no preço”, afirmou.

A Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) tentou fazer uma redução na produção, mas não conseguiu fechar um acordo nesse sentido nem dentro da própria entidade nem, principalmente, entre a Rússia e a Arábia Saudita, que são os dois grandes exportadores mundiais de petróleo. Sem acordo, a Arábia Saudita decidiu manter a decisão de aumentar a produção. “E os preços despencaram de uma hora para a outra, por falta desse acordo entre Arábia Saudita e a Rússia”.

Como os preços já vinham caindo neste primeiro trimestre do ano em curso, a tendência de queda se acentuou na última semana devido à crise do coronavírus e, também, pela leitura de uma oferta maior que a demanda. Segundo analisou o pesquisador do INEEP, trata-se de uma questão conjuntural “porque o coronavírus vai passar”.

Henrique Jager disse que, de modo geral, há a percepção de que os preços vão recuperar parte da perda no médio prazo. “Mas, no longo prazo, os preços devem se manter com uma volatilidade grande”. Ontem à tarde, o valor do barril estava em US$ 36,17 (- 2,9%) para o petróleo tipo Brent e US$ 33,36 (- 2,9%) o petróleo WTI. O petróleo WTI (‘West Texas Intermediate’) é o comercializado na Bolsa de Nova York e referente ao produto extraído principalmente na região do Golfo do México. Já o Brent é comercializado na Bolsa de Londres e tem como referência o petróleo extraído no Mar do Norte e no Oriente Médio. A expectativa é que os preços do barril não retomem o patamar de meados do ano passado, da ordem de US$ 60 a US$ 70, e fiquem em torno de US$ 50, considerando uma recuperação rápida da economia da China, “o que a gente não vislumbra”.

Recessão

De acordo com o pesquisador, isso vai depender muito do ritmo de retomada das demais economias do mundo. Destacou que a crise do coronavírus está saindo da China e entrando de forma muito pesada na Europa e Estados Unidos. Henrique Jager avaliou que como as empresas de energia têm peso grande na taxa de investimento da economia norte-americana, a redução do preço do petróleo vai diminuir o capital disponível para investimento e isso vai ter impacto forte na economia como um todo daquele país. Alguns economistas já começam a apontar que o risco de recessão para a economia americana é muito grande.

“As empresas de petróleo vão ter dificuldade para pagar suas dívidas e, consequentemente, vão diminuir suas taxas de investimento”. Como o setor de energia é muito importante para os Estados Unidos, a possibilidade é haver grande impacto na economia americana como um todo nos próximos meses. “Você tem impacto por um lado, porque a economia para, por causa da doença, mas isso pode se estender a depender disso (vírus), porque você vai descapitalizar as empresas de petróleo, que têm um peso importante na economia americana”.

Brasil

O cenário pode ser aplicado também no Brasil, no caso da Petrobras, analisou o pesquisador do INEEP. “Se o preço ficar na casa dos US$ 30 por muitos meses, isso vai afetar muito fortemente a Petrobras”, afirmou. Indicou que a estratégia que a Petrobras vem adotando nos últimos dois a três anos de concentrar as atividades em exploração e produção (E&P), vai contra a posição de ser uma empresa verticalizada, atuando em vários setores da economia, como ocorria até então.

Como o petróleo é o principal produto da empresa, a queda do preço internacional tem impacto negativo sobre a companhia. “Como você está focando todo o seu esforço em E&P, acaba ficando mais fragilizada do que as demais companhias de petróleo”, disse Jager. Esclareceu que as grandes companhias internacionais têm um peso grande no petróleo, mas atuam também na petroquímica, no refino, em logística, na busca de energias alternativas, por exemplo. E a Petrobras está se desfazendo de todas as suas empresas nessas áreas, bem como na distribuição, explicou.

Jager disse que se o preço do barril do petróleo cai muito, o preço do produto na bomba de gasolina não cai, porque a empresa não repassa toda a queda. O mesmo ocorre em um cenário de alta do preço. Nesses casos, os setores de refino e petroquímica atuam como fatores anticíclicos, ou seja, quando o preço do barril do petróleo cai, os preços destes produtos caem menos, ajudando a preservar a margem de lucro da empresa, e vice-versa. Ao se desfazer de participação nesses setores, a Petrobras está aumentando sua fragilidade no quadro internacional de baixa de preço do barril do petróleo que está apontado no horizonte de curto e médio prazo.

*Matéria alterada às 12h13 para correção de informação no quarto parágrafo. A redução da demanda no curto prazo, no Japão, deve alcançar quase 10%, e não 22%, como informado inicialmente.

Edição: Valéria Aguiar

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