Braskem: moradores falam sobre a vida após a desocupação de bairros

Publicado em 02/12/2023 - 18:11 Por Gésio Passos - Repórter da Rádio Nacional - Maceió
Atualizado em 05/12/2023 - 06:38

Mutange, Bebedouro, Pinheiro, Bom Parto e Farol. Esses são os bairros “fantasmas” no entorno da lagoa do Mundaú, em Maceió, que foram evacuados pelo risco de desabamento recorrente da exploração mineral de sal-gema pela empresa petroquímica Braskem.
 
Desde 2019, quase 60 mil pessoas tiveram que deixar suas casas pelo medo dos tremores de terra que criaram rachaduras nos imóveis da região. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, a exploração de 35 minas de sal-gema pela Braskem foi a responsável por deixar milhares de pessoas desabrigadas e transformar bairros antes movimentados e populosos em lugares praticamente desertos.

Desde a última quarta-feira (29), os moradores da parte dos bairros que não foram removidos estão em alerta. Uma decisão judicial levou a retirada de 23 famílias que ainda resistiam ao despejo no bairro do Pinheiro. Segunda a Defesa Civil, a área da mina número 18 ameaça desabar a qualquer momento, com potencial de criar na área uma cratera maior que o estádio do Maracanã.

Mas em algumas ruas desses bairros o trânsito ainda está liberado. Seguranças particulares, contratados pela Braskem, vigiam os mais de 15 mil imóveis, hoje totalmente abandonados. Os locais passaram a ser propriedades da empresa, após indenização que ainda é contestada por parte dos moradores.

Nessas ruas, casas, lojas e até prédios inteiros tiveram as portas e janelas substituídas por tijolo e cimento, criando muros que impedem a entrada de quem busca algo de valor. Em muitos casos os imóveis foram cercados com placas de alumínio que cobrem as fachadas. O mato cresce fora e dentro das casas, que tem muitos sinais de depredação. Os muros são marcados por uma série de números pintados em vermelho que indicam os registros de desocupação. Em algumas fachadas há também pichações que servem de protesto contra a Braskem e o poder público ou mesmo desabafos, escritos de lamento pela dor de quem teve que seguir a vida longe do lugar que amava.

A Rua Professor José da Silveira Camerino, que corta o bairro do Pinheiro, e está na região da área da mina 18, é um retrato de desocupação e ao mesmo tempo resistência. De um lado da rua, parte do comércio local ainda resiste, como um posto de gasolina e uma praça com ambulantes. Do outro do lado o cenário é o inverso: tudo fechado. Nesta quinta-feira (30), até o Hospital do Sanatório, que fica também nessa rua, transferiu pacientes para outras unidades de saúde às pressas.

O comerciante Mateus Costa tem uma loja de autopeças de um lado da rua e uma oficina mecânica do outro, uma na frente da outra. A oficina amanheceu, nesta sexta-feira, isolada, com aviso de interdição pela Defesa Civil. Seu sentimento é de desalento. Segundo ele, "a partir do momento que o seu faturamento cai, você já não consegue manter o mesmo padrão que você tinha. Isso mexe com você de todo jeito, psicologicamente eu estou arrasado”, afirma.

Mateus foi despejado de sua casa logo em 2019, mas conseguiu adquirir um imóvel com a indenização da Braskem no mesmo bairro, o que segundo ele hoje é tarefa bem difícil. O mercado imobiliário da cidade ficou inflacionado com o deslocamento forçado de tanta gente.

Manuela Rodrigues, de 79 anos, nascida e criada no Pinheiro, mora próximo as lojas de Mateus. Enquanto os fundos do imóvel servem como casa, a frente abriga uma pequena mercearia, hoje bastante esvaziada. Não há clientes para movimentar o comércio. “Pra quem nasceu, viveu e ainda está vivendo aqui, o que está se tornando é uma tristeza só. Fica uma interrogação, será que não vai acontecer nada aqui? Porque tem do outro lado da rua e no meu lado não tem?”, questiona.

Cleber Bezerra também morou no bairro a vida toda e teve que sair quando os tremores começaram. Conseguiu comprar uma casa em uma região mais distante do Centro da cidade, o bairro do Tabuleiro dos Martins, depois de mais de um ano vivendo do aluguel pago pela Braskem. Aposentado, com 62 anos, visita os amigos com frequência no Pinheiro. Ele relata ter dificuldades para socializar no novo bairro. “Para mim não foi bom não, por causa do conhecimento. Antes daqui pro centro (de Maceió) eram 20 minutos e, agora, de onde eu moro até o centro é 40 minutos”, diz.

Em frente ao Hospital do Sanatório, Mário dos Santos tem sua barraca de acarajé há 30 anos. Vendia até 200 unidades do quitute por dia antes do “pesadelo” da Braskem. Hoje comemora quando consegue vender 50. Segundo ele, “movimento não tem, o hospital já fechou e agora, com esse negócio de cai mas não cai, fica difícil a vida da gente. É esquisito, parece uma cena de guerra aqui”.

A história se repete com o feirante Givanildo Costa. Ele teve que deixar sua casa no bairro do Bebedouro, vizinho ao Pinheiro. Ele diz que a situação abalou seu irmão, que tinha uma mecânica no Pinheiro. Com fechamento da loja, veio a tristeza, a depressão, o que piorou a situação da diabetes que levou à perda da visão. “O meu irmão ficou com depressão porque ele tinha uma oficina que aqui no Bebedouro, ele tinha uma renda uns R$ 6 mil por mês, e (depois da mudança) chegou a ganhar nem um salário mínimo por mês, tudo por causa da Braskem. Está com depressão, diabetes, derrame, cego, só vê o vulto”, conta Givanildo.

A Braskem confirma que pode ocorrer um grande desabamento da área, mas a mina também pode se acomodar. A Defesa Civil da prefeitura de Maceió pede que a população não circule pelas áreas de risco. A petroquímica diz que já foram pagos R$ 3,7 bilhões em indenizações e auxílios financeiros para moradores e comerciantes desses bairros. Mas a única certeza, até o momento, é que parte da região continuará fantasma no meio da capital alagoana.

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