Maio Vermelho alerta para o diagnóstico precoce do câncer de bexiga

Cerca de 50% dos tumores vesicais são causados pelo hábito de fumar

Publicado em 15/05/2021 - 18:17 Por Ludmilla Souza - Repórter da Agência Brasil - São Paulo

A Campanha Maio Vermelho, que acontece no mês de combate ao tabagismo, tem o objetivo de alertar a população sobre os riscos do tabaco e a importância do diagnóstico precoce no tratamento do câncer de bexiga. A campanha acontece em todo Estado de São Paulo, e é uma idealização da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU, secção SP). A campanha mostra a relação entre o hábito de fumar e o aumento das chances do surgimento de câncer de bexiga.

Além da possibilidade do câncer de bexiga, o tabaco afeta os pulmões de forma a aumentar o risco de desenvolvimento da forma grave da covid-19, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com pesquisa publicada no Chinese Medical Journal, fumantes têm 14% mais chances de desenvolver pneumonia por coronavírus.

O câncer de bexiga está em 7º lugar no Brasil dentre os tipos de tumores mais comuns na população. Dados publicados pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), mostram que, em 2020, foram cerca de 10.640 mil casos, com 4.517 óbitos. Segundo a SBU-SP, só no estado de São Paulo, a taxa é de 13,09 casos para cada 100 mil homens. A estimativa de novos casos para 2022 é de 7.590 casos em homens e de 3.050 em mulheres.

Fatores de risco

Além do cigarro, a idade é um fator significativo. Mais de 70% dos tumores são diagnosticados após os 65 anos e a idade mediana do diagnóstico é de 73 anos. Em homens a incidência do câncer de bexiga é de três a quatro vezes maior do que em mulheres. Outro ponto é a raça: brancos tem aproximadamente duas vezes mais risco de desenvolverem o problema do que negros.

“Além disso, há fatores ocupacionais relacionados ao câncer de bexiga: compostos químicos chamados aminas aromáticas, dentre outros, favorecem o aparecimento do câncer de bexiga. Então, trabalhadores de alguns setores da indústria estariam em maior risco, como os da tinta, de corantes e da borracha”. ressalta o vice-presidente da SBU-SP Marcelo Wroclawski

Segundo o urologista, algumas medicações também podem estar envolvidas no surgimento do câncer de bexiga. Dentre eles, o mais comumente relacionado é um quimioterápico chamado ciclofosfamida, que também aumenta o aparecimento da doença.

“Problemas crônicos da bexiga, ou seja, situações que causam inflamação no órgão, estão correlacionadas com risco. Dentre elas, infecções urinárias constantes e, principalmente, a presença de pedras na bexiga”, acrescentou Wroclawski. 

Câncer de bexiga é mais comum em homens

A chance de um homem desenvolver câncer de bexiga ao longo da vida é de aproximadamente 1 em 25-30 e da mulher é de 1 em praticamente 90. “Isso provavelmente ocorre porque indivíduos do sexo masculino estão, ou estiveram, mais expostos a fatores de risco, como o próprio tabagismo e a exposição aos compostos químicos no ambiente de trabalho”. 

Quanto à hereditariedade, este tipo de tumor não tem muita correlação com este fator. “Entretanto, existem algumas síndromes genéticas raras que tem por característica aumentar a predisposição ao aparecimento de tumores. Uma destas, a mais comumente associada ao tumor de bexiga, se chama Síndrome de Lynch. Indivíduos acometidos tem maior risco de desenvolverem tumores intestinais, de útero, estômago, ovário e pâncreas, dentre outros”, esclarece o médico. 

Sintomas

O principal sinal relacionado aos tumores de bexiga é a presença de sangue visível na urina. Entretanto, a doença também pode causar alteração do padrão urinário, provocando sintomas chamados de armazenamento, ou irritativos, que são o aumento da frequência com que o indivíduo urina, tanto de dia quanto de noite, a necessidade de urinar com urgência, além de dor/ queimação ao urinar. Num cenário de doença mais avançada, o paciente pode apresentar dor nas costas e emagrecimento.

Tratamentos 

Se houver suspeita, o paciente deverá ser submetido a um procedimento chamado Cistoscopia, que é uma endoscopia das vias urinárias. Ou seja, por meio da uretra (canal da urina), introduz-se uma câmera que identificará uma eventual lesão no interior da bexiga. Na maioria das vezes, neste mesmo ato, poderá se realizar a ressecção do tumor, que vai para análise do patologista. “Com isso saberemos se é ou não maligno, o tipo histológico (qual tumor maligno) e o estadiamento local, ou seja, até qual camada da bexiga o câncer acomete”, detalha o médico.

Se a lesão não invadir o músculo da bexiga, o que antigamente era chamado de tumor superficial, muitas vezes esse procedimento já é curativo e, em alguns casos, só é necessário complementar com instilações de algumas substâncias na bexiga durante o seguimento pós-operatório. Segundo o especialista, pouco mais de metade dos casos são diagnosticados neste estágio e a sobrevida neste cenário é superior a 95% em 5 anos.

“Já quando o tumor invade a musculatura da bexiga, o câncer é mais avançado e o tratamento precisa ser mais agressivo, envolvendo muitas vezes a associação de quimioterapia e a necessidade de remoção da bexiga”, diz  Wroclawski que destaca que aproximadamente um terço dos casos são diagnosticados nesta fase. Como a doença ainda está restrita à bexiga, o câncer ainda é curável na maioria das vezes, com uma sobrevida de 70% em 5 anos.

Prevenção 

Após cessar o tabagismo por dez anos, o risco de câncer de bexiga cai pela metade, afirma o especialista. Além disso, outras medidas são: proteção adequada no ambiente de trabalho em que há exposição às aminas aromáticas, beber muito líquido e uma dieta rica em frutas e vegetais. “Apesar da evidência não ser robusta, é útil para saúde cardiovascular e ajuda na prevenção de outros tumores”, aconselha o médico.

Dicas para parar de fumar:

- Evite lugares com muitos fumantes;

- Quebre a rotina (se você fuma ao tomar café após o almoço, tente evitar, varie a bebida, altere os horários e locais das refeições);

- Concentre-se em outras atividades;

-Busque apoio da família e amigos;

-Comece a guardar todo o dinheiro que você gastaria com o cigarro e use-o como motivação;

- Se tiver uma recaída não desanime, o importante é nunca desistir.

Pandemia

Outro levantamento estatístico realizado pela SBU-SP, em parceria com instituições de saúde responsáveis pelo atendimento de pacientes do SUS, revela que a pandemia acabou provocando, indiretamente, uma redução média de 26% no diagnóstico de novos casos de tumores de rim, próstata e bexiga. 

Os dados compararam a identificação de novos casos de câncer gênito-urinário nos anos de 2019 e 2020. Mais especificamente em relação ao tumor de bexiga, o Hospital das Clínicas da Unicamp, por exemplo, observou uma queda de 52% no diagnóstico de novos casos e no Hospital AC Camargo Câncer Center, a redução foi de 24%, o que é preocupante e serve de alerta para a busca de orientação e acompanhamento médico.

“No caso de suspeita do câncer de bexiga e sobretudo quem já está em tratamento da doença ou a descobriu recentemente, ainda que estejamos vivendo um momento crítico, a recomendação é que a investigação diagnóstica e o tratamento não sejam interrompidos”, diz o vice-presidente da SBU-SP.

O especialista afirma que o tabagismo é o fator de risco mais importante para o câncer de bexiga. “Estima-se que o hábito de fumar seja responsável por cerca de 50% dos tumores vesicais e fumantes tem de 4 a 7 vezes mais chance de desenvolver esta neoplasia. Isto ocorre porque, tanto no cigarro quanto em sua fumaça, há mais de 7 mil substâncias químicas e sabemos que, pelo menos 70 delas, são carcinogênicas, favorecendo o aparecimento de tumores por meio de danos às células e seus genes. No caso da bexiga, o risco é aumentado pois estes compostos químicos, ao serem inalados, são absorvidos pelo pulmão, caem na corrente sanguínea e serão filtrados pelo rim, que produzirá uma urina “contaminada”. 

Como a bexiga é um reservatório de urina, o médico completa, estas substâncias passarão horas em contato com a superfície vesical, propiciando o ambiente adequado para causar os danos celulares e o consequente aparecimento de tumores.

Edição: Aline Leal

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