Modelo econômico e participação política afetam a saúde, dizem especialistas

Publicado em 24/05/2016 - 09:07 Por Isabela Vieira - Enviada Especial da Agência Brasil* - Curitiba

Pesquisadores concordam que as condições de vida e de trabalho - a rotina do dia a dia, a alimentação, o trabalho e o meio ambiente - afetam diretamente a saúde. Para melhorar a qualidade de vida e combater desigualdades que influenciam doenças, cientistas defenderam mudanças na economia e na política dos países, ontem (23), na 22ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde. O evento reúne cerca de 2 mil especialistas em Curitiba até sexta-feira (27).

O reitor da Universidade Andina Simón Bolívar e epidemiologista, Jaime Breilh, crítico do capitalismo, explicou que não é possível enfrentar as causas do adoecimento de pessoas sem olhar para o impacto das atividades econômicas em voltas delas. Ele deu como exemplo o aparecimento de dengue em uma cidade do Equador, com maior incidência nas áreas pobres. Lá, a população sofre desabastecimento e precisa armazenar água em toneis.

“As determinações sociais são uma ferramenta para olhar não só a promoção da saúde, mas para repensar a civilização, sua base econômica e política”, afirmou, cobrando mudanças no modelo em que está baseada hoje boa parte das maiores economias mundiais.

Breilh alertou para retrocessos na promoção da saúde na América Latina, com avanços de políticas neoliberais e que pressupõem menor participação do Estado. Citou que há avanço dessas políticas no Brasil, na Argentina e na Venezuela, com a manutenção de estruturas que perpetuam desigualdades. Para o professor, a promoção da saúde deve estar ligada ao desenvolvimento sustentável, à política de soberania, à cultura de solidariedade e a uma vida saudável.

A pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, que participou da discussão sobre determinantes sociais na saúde, concorda que políticas públicas, nos últimos anos, procuraram levar em conta as condições de vida das pessoas para combater doenças, com investimentos em saneamento e habitação. No entanto, disse que “uma onda conservadora” no país pode tirar a saúde do centro das políticas sociais.

“Por mais que se tenha uma intenção racionalizadora, de economizar, de dar mais qualidade – sabemos que há problemas na gestão do SUS [Sistema Único de Saúde] -- cada mudança dessas, sobretudo se a sociedade não está acompanhando, pode implicar prejuízo”, afirmou.

Preocupada com as mudanças no Brasil, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) defendeu no domingo (22), em vez de redução de investimentos, mais recursos para o sistema.

Há uma semana, o ministro da Saúde, Ricardo Barros – deputado pelo PP do Paraná – declarou que o tamanho do Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser revisto e que o Estado não tem condições de arcar com todos os direitos previstos na Constituição. Dois dias depois, ele negou que o SUS será afetado por corte de verbas.

A preocupação dos especialistas com cortes no SUS foi agravada depois do anúncio, em março, pela presidenta Dilma Rousseff, da retirada de cerca de R$ 2 bilhões da saúde em 2016.

“Precisamos de uma gestão pública como contraponto à terceirização e à privatização do cuidado. Não aceitaremos passivos a usurpação de direitos. A ponte que este governo ilegítimo aponta é para um país de excluídos, e isso é inadmissível. Não há promoção da saúde sem democracia”, declarou o vice-presidente Paulo Sávio de Góes, pró-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, referindo-se ao governo interino de Michel Temer.

O Ministério da Saúde não tem representantes no evento. A assessoria informou, por e-mail, que o ministro tem se posicionado sobre a questão do investimento em saúde em várias ocasiões e que ele reafirma que não há a pretensão de redimensionar o SUS e que é preciso ajustar a capacidade de financiamento às demandas.

Mais cedo, em Brasília, ao anunciar medidas para redução de gastos públicos, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, informou que o governo vai propor um teto para a dívida pública e que as despesas com as áreas de saúde e educação deverão ficar vinculadas ao teto.

Saúde e meio ambiente

Na palestra de ontem, o canadense Trevor Hancock defendeu uma nova economia que considere os impactos no meio ambiente. Ele alertou sobre hábitos que precisam ser deixados para trás globalmente e que não dependem de governos. É o caso do consumo de carne, por causa do impactos ambientais da produção, com larga escala de consumo de água e terras.

“Não é uma coisa popular para se falar aqui no Brasil, Uruguai e na Argentina, também não é no Canadá, mas precisamos de uma dieta com menos carne. Não precisamos virar vegetarianos, mas rever a quantidade”, disse Hancok, defensor de economias verdes, que incluem ainda conservação de energia, a reciclagem, além de parcerias com movimentos da sociedade.

“Mudanças ecológicas, sociais e econômicas interagem de forma independente, causando impacto na saúde da população e a saúde da população deve e pode buscar influenciar esses fatores. Esse é o desafio para promoção da saúde no século 21, posto para a nova geração”, concluiu.

Promovida pela primeira vez no Brasil, a Conferência de Promoção à Saúde ocorre até quinta-feira (26), com cerca de 2 mil pessoas, entre pesquisadores, profissionais, gestores e usuários de sistemas de saúde de diversos países.

* A repórter viajou a convite da organização do evento

Edição: Graça Adjuto

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