Pelé nega ter presenciado irregularidade na eleição da Rio 2016

O ex-jogador prestou depoimento como testemunha de Carlos Nuzman

Publicado em 05/06/2018 - 18:43 Por Léo Rodrigues – Repórter da Agência Brasil* - Rio de Janeiro
Atualizado em 05/06/2018 - 20:06

O ex-jogador Pelé prestou depoimento nesta terça-feira (5) como testemunha de defesa de Carlos Arthur Nuzman, ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), e negou ter presenciado qualquer negociação de compra de votos para eleger o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Ele atuou como embaixador da candidatura da capital fluminense e integrou comitivas para apresentar o país a membros do Comitê Olímpico Internacional (COI). Pelé foi ouvido pelo juiz federal Marcelo Bretas por videoconferência em processo derivado da Operação Unfair Play.

"Se houve alguma conversa nesse sentido, foi em particular. Eu não estive em nenhuma", disse o rei do Futebol, durante audiência em que participou por videoconferência, atendendo convocação da 7ª Vara Federal Criminal, localizada no Rio. Ele respondeu perguntas por aproximadamente 30 minutos.

O juiz Marcelo Bretas e os advogados fizeram deferências ao ex-jogador e manifestaram admiração. Pelé, por sua vez, manifestou preferência por ser chamado pelo seu apelido em lugar de seu nome, Edson Arantes do Nascimento, e também pediu para não ser chamado de senhor

Carlos Arthur Nuzman é réu juntamente com Leonardo Gryner, ex-diretor-geral de operações do Comitê Rio 2016, e Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro. O Ministério Público Federal os três e o senegalês Lamine Diack, ex-membro do Comitê Olímpico Internacional (COI), e o filho dele, Papa Massata Diack, ex-dirigente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) de terem participado de um esquema que teria pago suborno de US$ 2 milhões (R$ 7,5 milhões), com objetivo de garantir, pelo menos, o voto de um dos delegados da África a favor do Rio.

Pelé lembrou que foi convidado para integrar a delegação do Rio de Janeiro na escolha da sede dos Jogos, feita em Copenhague, na Dinamarca, por Nuzman e Cabral, mas negou ter relação pessoal com os dois acusados. "Nunca tive um contato mais íntimo com eles, nem com seus familiares", garantiu o ex-jogador.

Questionado se teve contato com o senegalês Lamine Diack, à época presidente Federação Internacional de Atletismo, ele respondeu positivamente. "Era apaixonado pelo Brasil, pelo futebol e pelo Pelé". No entanto, negou que tenha presenciado qualquer tipo de negociação para compra de votos. "Essa conversa aí pode ter ocorrido em particular", respondeu. Pelé também afirmou que Nuzman se dedicou muito pela candidatura.

O ex-jogador contou que foi convidado para participar da candidatura pelo ex-governador Sérgio Cabral e que não negaria um pedido para representar o Brasil. Ele disse ter integrado comitivas em viagens tanto antes da escolha do Rio como cidade-sede, como depois. Segundo ele, nessas agendas, se relacionava também com outras personalidades engajadas na campanha e citou o ex-jogador Bebeto e os músicos Marisa Monte e Seu Jorge. Entre alguns países citados, lembrou de Senegal, Estados Unidos e Inglaterra. Também confirmou ter presenciado o anúncio da escolha em 2009, em Copenhague. Segundo ele, houve euforia dos brasileiros.

Como desdobramento da Operação Unfair Play, Nuzman chegou a ficar preso por 15 dias em outubro do ano passado, mas foi solto após obter um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e responde ao processo em liberdade.

Procurado pela Agência Brasil, o advogado Nélio Machado, responsável pela defesa do ex-presidente do COB, avaliou de forma positiva o depoimento de Pelé e disse que "aos poucos, a denúncia vai se esfacelando e a inocência  de Nuzman vai se confirmando". A defesa de Sérgio Cabral também não retornou aos contatos da reportagem.

Antes de Pelé, depôs Maria Elisabeth da Silva, que trabalhou entre 2002 e 2016 com Leonardo Gryner, que era seu chefe no Departamento de Marketing do COB e depois no Comitê Organizador do Rio 2016. Ela atuou na promoção institucional da candidatura e posteriormente dos Jogos Olímpicos. Disse que não é amiga íntima de Gryner, com quem sempre teve um relacionamento estritamente profissional. E classificou Gryner com uma pessoa correta. "Tem um conhecimento enorme de esporte e de jogos, uma pessoa muito criativa".

Pela manhã, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também depôs como testemunha no processo a afirmou não ter havido trapaça na votação que elegeu o Rio de Janeiro como sede dos jogos. Como está preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, Lula também respondeu aos questionamentos por videoconferência.

Réus

A Unfair Play é um dos desdobramentos da Operação Lava Jato no Rio de Janeiro. O MPF imputa à Nuzman os crimes de corrupção passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Já Leonardo Gryner responde por corrupção passiva e organização criminosa, enquanto Papa Diack, Lamine Diack e Sérgio Cabral são acusados de corrupção passiva.

Arthur Soares, empresário e ex-dono do grupo Facility, também foi denunciado. Conhecido como Rei Arthur, ele é apontado pelo MPF como responsável pelo pagamento aos senegaleses e responde por corrupção ativa. Em contrapartida pela ajuda milionária, o empresário teria sido beneficiado com a contratação de uma de suas empresas, a LSH Empreendimentos, pelo Comitê Organizador do Rio 2016.

* Com informações da Agência EFE

Edição: Carolina Pimentel

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