Exposição Luz no Brasil marca reabertura do Paço Imperial, no Rio

Trabalhos são da artista plástica belga Françoise Schein

Publicado em 26/02/2021 - 08:00 Por Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil - Rio de Janeiro

A exposição Luz no Brasil, da artista plástica belga Françoise Schein, marca a reabertura hoje (26) do Paço Imperial no Rio de Janeiro. Comemora também os 20 anos de atuação de Françoise no Brasil, onde tem obras públicas sobre direitos humanos. A mostra ficará aberta até o dia 25 de abril, com entrada franca.

Esta é a primeira vez que a artista tem uma retrospectiva do seu trabalho na capital fluminense, onde adotou a filha Lohana ainda menina, quando vendia chiclete na rua e dormia em um túnel da cidade. Hoje, Lohana é uma jovem de 28 anos, mora em Paris, é formada em comunicação e marketing e faz pós-graduação em produção de eventos culturais. Para manter os vínculos com sua família biológica, Lohana vem ao Rio uma vez por ano com a mãe adotiva.

Trajetória

A exposição foi criada em conjunto por Françoise e sua filha, que é também a curadora da mostra, e mistura nas obras expostas a vivência pessoal da artista e suas ações educativas no país, onde fundou a Associação Inscrire Brasil. A entidade é um braço da instituição criada em 1997 na França e tem como objetivo "inscrever os direitos humanos nas cidades do mundo”. Na Inscrire Brasil, Françoise conta com uma equipe que acompanha todas as fases do projeto. Integrada por profissionais de diversas áreas, a equipe inclui a arquiteta Rita Anderaos e a pedagoga Moema Quintanilha. A Associação Inscrire desenvolve trabalhos artísticos-educativos em quatro continentes.

Lohana Schein disse à Agência Brasil que a exposição Luz no Brasil traça a trajetória de Françoise e da Associação Inscrire na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil e apresenta uma conclusão do que foi feito nesses 20 anos. “Os trabalhos de Françoise misturam arte, história, pedagogia, urbanismo. Têm muito a ver com a cultura e os direitos humanos”. Quando Françoise veio para o Brasil para adotar Lohana, descobriu as favelas do Rio de Janeiro e de outros locais do país, e criou projetos com características desses lugares, aos quais juntou sua vivência pessoal e referências à adoção.

Fio condutor

A mostra foi concebida há um ano e meio por Françoise e Lohana, levando em consideração a arquitetura do Paço Imperial, com quatro espaços bem definidos. Os direitos humanos são o fio condutor da exposição. Na entrada, ou primeiro espaço, o público verá desenhos de crianças feitos a partir de um mapa dos direitos humanos e dos projetos realizados pela artista. A segunda sala, batizada Conscientização, conta o processo de consciência que Françoise teve no Brasil quando descobriu as comunidades carentes e a cultura e montou a Associação Inscrire.

Na terceira sala, “seguindo a história e a cronologia, ela foi montando uma parte de pedagogia sobre como criar com as crianças sobre direitos humanos. Nessa parte, há fotos das comunidades onde Françoise e a associação trabalhavam, as escolas, os participantes, para entender realmente o impacto territorial que a Associação Inscrire e Françoise tiveram no Rio e no Brasil”, disse Lohana.

O quarto espaço, chamado Patrimônio, fala dos objetivos da associação e dos projetos de Françoise de criar um patrimônio humano, urbano e histórico nas cidades. “Ou seja, como os trabalhos dela são todos instalados nos muros e nas paredes das cidades, são patrimônio urbano acessível para todos. É uma forma de oferecer cultura e arte para todas as pessoas, sem distinção”, explicou Lohana Schein.

Estação da Luz

O nome da exposição foi inspirado na Estação da Luz, de São Paulo, onde Françoise fez sua primeira intervenção artística e pedagógica sobre direitos humanos em uma estação de metrô no país. A obra demorou dez anos para ser concluída. Os 16 painéis da Estação da Luz contam também a história de São Paulo, por meio de desenhos figurativos criados pela artista e painéis pintados por 3 mil alunos das escolas da periferia da cidade.

Para Françoise Schein, o metrô é o lugar mais democrático nas cidades, porque está franqueado a todos. “O preço é igual para todo mundo e é a maneira de a cidade funcionar. É dessa forma que se faz a maior democratização da arte”, comentou Lohana.

O trabalho mais importante foi feito por Françoise na Estação Concorde do metrô de Paris, sobre a revolução francesa (1989-90), seguindo-se Saint Gilles, em Bruxelas (1992), sobre os direitos humanos e as fronteiras europeias; Parque, em Lisboa (1994), sobre os direitos humanos e os descobrimentos portugueses pelo mundo na Idade Média; Universitetet, em Estocolmo (1998), abordando os direitos humanos e as questões ambientais mundiais; e a Westhafen, em Berlim (2000), sobre os direitos humanos e questões de migração de pessoas. Ela criou também O Jardim dos Direitos Humanos, no Parque Rhododendrons, em Bremen (2001); a fachada do Centro Cultural Judaico-Árabe, em Haifa, Israel (1993); e a fachada do teatro municipal de Ramallah, na Palestina, intitulada “Uma cidade como árvore pelos direitos humanos” (2009).

Trabalho participativo

O processo de criação é sempre feito com a participação de estudantes, jovens e crianças de comunidades menos favorecidas. Por meio do envolvimento na criação da obra artística, os estudantes conhecem a Declaração Universal dos Direitos Humanos e, apoiados por um trabalho educativo, são estimulados a pensar sobre o assunto e a relacioná-lo com sua vida.

Os primeiros trabalhos feitos por Françoise no Brasil estão na comunidade do Vidigal, zona sul do Rio de Janeiro. O mais conhecido na capital fluminense fica na Estação Siqueira Campos do metrô, em Copacabana, e apresenta um mapa de 200 metros quadrados da região com letras dos direitos humanos e imagens da história da escravidão. O vínculo existente entre Françoise, sua filha adotiva e a família biológica da jovem está presente na figura da avó de Lohana, dona Irene, que passeia pelo calçadão de Copacabana.

Além desses e do projeto da Estação da Luz, em São Paulo, Françoise criou a obra da estação de metrô da Galeria dos Estados, em Brasília, que foi encomendada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Consiste em um grande painel de 110 metros quadrados, feito com a participação de mil jovens do Distrito Federal, no qual grandes balões azuis e verdes anunciam questões da ecologia mundial.

O caminho trilhado por Françoise e a Associação Inscrire pode ser apreciado nas mais de 20 instalações públicas participativas localizadas em comunidades carentes da periferia do Rio, que fazem parte do projeto “Inscrever os Direitos Humanos em 1001 escolas”. Desde 2000, começando pelo Rio de Janeiro e seguindo para vários países do mundo, como Bélgica, França, Israel, Palestina, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Espanha, Uruguai, Haiti, ela criou o projeto que se mantém em crescimento permanente chamado “Escrever os Direitos Humanos nas escolas e nos muros das cidades”.

“O trabalho que estamos fazendo, lenta mas seguramente, nas escolas brasileiras e em outras partes do mundo é o alfabeto das competências para a vida e deve ser a primeira coisa a ser ensinada aos milhares de milhões de jovens estudantes de todo o mundo”, afirmou Françoise Schein. E indagou se, para isso, não será de forma lúdica, criando obras de arte para o prazer da beleza para todos e por todos, a melhor maneira de fazê-lo.

Pandemia

Lohana Schein informou que devido à pandemia do novo coronavírus, a exposição não será uma experiência imersiva total no trabalho de sua mãe. Não haverá oficinas para participação do público, e as pessoas não poderão desenhar na parede de cerâmica onde termina a exposição com a frase “E agora?”.

Apenas os monitores vão desenhar o que o público quiser interpretar ali sobre os direitos humanos e dizer o que seria necessário acrescentar hoje aos artigos da Declaração dos Direitos Humanos, aprovada em 10 de dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das Nações Unidas. “Os visitantes não poderão tocar em nada da exposição por causa da covid”, disse. Lohana esclareceu que todas as questões de cidadania, inclusão social e cultura são desafios para a Associação Inscrire.

De acordo com a curadora, o catálogo da exposição é um passaporte para a democracia e um acesso à arte. “É importante comunicar às pessoas os nossos direitos e também os deveres, para levar às comunidades uma vida mais justa”. Lohana destacou que a mostra reforça o conhecimento dos direitos humanos, a esperança no futuro e em um Brasil mais democrático, que oferece ao povo mais acesso a esses direitos.

Luz no Brasil tem o patrocínio do Ministério do Turismo, da Secretaria Especial da Cultura e da Caixa Seguradora, com apoio do Consulado-Geral da França, Artmyn e Gigascope.

Artista

Françoise Schein nasceu na Bélgica em 1953. Estudou desenho urbano na Universidade de Columbia, em Nova York, e arquitetura, em Bruxelas. Estudou também arte com Robert Morris, na NYU University. Desenvolve obras urbanas de grande porte em nível internacional na Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul e no Oriente Médio.

Há 30 anos, Françoise dedica grande parte de seu trabalho à disseminação dos direitos humanos nas escolas e em bairros desfavorecidos. Em 1997, ela fundou a organização não governamental (ONG) Associação Inscrire, dedicada à divulgação dos conceitos de cidadania e direitos humanos por meio de obras inovadoras participativas.

Todas as obras de Françoise nas cidades em que atuou se tornaram marcos locais, monumentos contemporâneos. Françoise acredita no vínculo estrutural entre delicadeza, bondade e beleza. Criou uma metodologia muito humana para a produção pedagógica das suas obras, envolvendo a participação de pessoas das diversas classes sociais.

Sua metodologia artística envolve com frequência a cerâmica, que é fácil de usar e tem grande longevidade. É nas estações de metrô das cidades, nos parques e nos muros que ela mostra o texto dos direitos humanos de 1948, entremeado de imagens, textos filosóficos e literários e cartografias da cultura e da história local, produzidos com a participação ativa de pessoas da comunidade. 

Edição: Graça Adjuto

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