Podcast investiga projeto de Brasil interrompido pelo golpe de 1964

Reformas de base de Jango enfrentariam problemas estruturais do país

Publicado em 01/04/2024 - 20:43 Por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela - Radioagência Nacional - São Paulo e Brasília
Atualizado em 02/04/2024 - 06:00

Golpe de 64: Perdas e Danos lança luz sobre os dias que antecederam o golpe de 1964. Batizada de Futuro Interrompido, a primeira temporada da série resgata os embates em torno das propostas do ex-presidente João Goulart que serviriam de estopim para que a direita se unisse e interrompesse o processo democrático. Em seis episódios, este documentário em áudio revisita registros históricos, ouve personagens que viveram este momento crítico e leva o ouvinte a refletir sobre o projeto de nação interrompido com o golpe que impediria Jango de levar adiante seu desejo de enfrentar problemas sociais crônicos que afetavam o país.

Ápice do momento crítico que levaria à deposição de Jango, o histórico comício dos 200 mil na Central do Brasil, no dia 13 de março de 1964, unificou movimentos rurais, sindicais e estudantil.

“E nós estávamos lá no meio do povo panfletando, gritando palavra de ordem, aquelas coisas. Eu tinha 20 anos. A gente esperava dar força, fortalecer o governo João Goulart para ele conseguir implantar as reformas de base, principalmente a reforma agrária.” Iara Cruz, jornalista e diretora da ABI, a Associação Brasileira de Imprensa.

"Eu assisti o comício. Eu era estudante. Eu, na verdade, era da União Metropolitana dos Estudantes, que era ligada à UNE", detalha Iara.

Nele, o ex-presidente apresentou as Reformas Estruturais de Base, um pacote de medidas para tentar mudar os problemas sociais históricos do país. O Brasil de 1964 somava 80 milhões de pessoas. Quatro de cada dez pessoas viviam na zona rural. 40% eram também analfabetos, sem direito a voto. Dias depois do ato na Central do Brasil, em 31 de março, cerca de seis mil soldados comandados pelo general Olímpio Mourão Filho deixaram Juiz de Fora, em Minas Gerais, e marcharam pelo que hoje é a BR 040, rumo ao Rio de Janeiro, numa rebelião para derrubar o presidente João Goulart.

Cerca de 36 horas depois deste levante, uma sessão no Congresso Nacional tentou dar ares de legalidade ao golpe. Como Jango não era acusado pelos crimes de responsabilidade previstos na Constituição em vigor na época, a manobra foi alegar que ele se ausentou do país sem a autorização do Parlamento --o que também não correspondia aos fatos.

 Em 2013, o Congresso Nacional anulou essa sessão. Um ato simbólico para referendar o episódio de 1964 como golpe de estado.

"Eu acho que 1964 interrompeu um processo de país, eu não tenho nenhuma dúvida disso."  Esta é a visão de Mariluce Moura, uma referência do jornalismo científico no Brasil na atualidade, presa e torturada durante a ditadura.

O segundo episódio da série de podcasts Golpe de 64: Perdas e Danos vai ao ar no dia 11 de abril, no site da Radioagência Nacional e nas plataformas de áudio. Os demais episódios serão publicados semanalmente, sempre às quintas-feiras.

GOLPE DE 64: PERDAS E DANOS

Primeira temporada: Futuro interrompido

Episódio 1 - As reformas e o fantasma

TRILHA DE ABERTURA 🎶  

VALÉRIA REZENDE: Nós atuaríamos em todo lugar... 

MARILUCE MOURA: Nós estudantes também íamos ajudar outros grupos mais pobres na alfabetização. 

CARLOS MOURA: Nós teríamos menos desigualdade. Não haveria tanta concentração de renda.

IARA CRUZ: Você não teria hoje essas cidades inchadas

JOÃO ROBERTO MARTINS: Seria um outro Brasil se não tivesse havido o golpe.

MARILUCE MOURA: Ia acontecer, ia não sei o quê. A gente fala muito, né? Porque era aquela coisa: a gente tava na expectativa, e tudo é interrompido.

TRILHA 🎶   

ELIANE: Ia acontecer. Ia não sei o que… Iria, seria, teria… Na gramática, esse tempo verbal que parece uma promessa que não foi cumprida é o Futuro do Pretérito. Um futuro que não deu certo. Que ficou no passado sem nunca ter conseguido virar presente.

MARILUCE: Eu acho que 1964 interrompeu um processo de país, eu não tenho nenhuma dúvida disso.

SUMAIA: 1964 interrompeu um processo de país… Desde que começamos a ler e entrevistar as pessoas sobre os 60 anos do golpe que submeteu o Brasil a 21 anos de ditadura militar, essa ideia da interrupção sempre esteve presente. 

ELIANE: E com ela, muitas perguntas: que projeto estava sendo colocado em prática e foi interrompido? Quem não quis que esse projeto virasse realidade? E o que foi construído no lugar? Qual futuro foi interrompido antes do tempo?  Eu sou Eliane Goncalves…

SUMAIA: Eu sou Sumaia Villela. E essas perguntas nós vamos tentar responder a partir de agora.

VINHETA DE ABERTURA 🎶  

ELIANE: Primeira temporada: futuro interrompido

ÁUDIO AMBIENTE DA SESSÃO DO CONGRESSO NACIONAL QUE RETIROU JOÃO GOULART DA PRESIDÊNCIA EM 1964 🎶  

SESSÃO CONGRESSO NACIONAL: A lista de presença acusa o comparecimento de 152 senhores deputados e 26 senhores senadores. Achando-se, portanto, na casa 178 senhores congressistas. 

ELIANE: 178 congressistas. Somando senadores e deputados federais, o Congresso Nacional tinha 634 parlamentares. Quer dizer, a sessão convocada às pressas no dia  primeiro de abril de 1964 não chegou a reunir nem um terço do parlamento. Brasília estava sitiada. Estradas e o aeroporto fechados naquela quarta-feira.  

SESSÃO CONGRESSO NACIONAL: A presente sessão das casas conjuntas do Congresso Nacional foi convocada, a fim de que esta presidência pudesse fazer uma comunicação…

SUMAIA: Já estamos na madrugada do dia 2 de abril. Esse ai é o Senador Auro de Moura Andrade. Presidente do Senado, opositor do presidente da república, João Goulart, e filho de um dos maiores fazendeiros do país… 

SOBE SOM 🎶  - Tião Carreiro e Pardinho - Rei Do Gado

ELIANE: …tinha até moda de viola para falar do pai de Auro... 

SUMAIA:  Pois bem… foi o filho do Rei do Gado quem conduziu uma sessão tumultuada  - e a jato. 

SESSÃO CONGRESSO NACIONAL: [campainha] Eu peço licença ao nobre deputado. Eu peço licença... Eu não posso permitir que o nobre Deputado prossiga numa questão de ordem que não diz respeito à ordem dos trabalhos da casa.

gritos ao fundo que parece ser ora de fascistas ora de comunistas

ELIANE:  Os ânimos acirrados não eram por acaso. Naquele momento havia um golpe de estado em marcha, literalmente.

EFEITO SONORO 🎶  

ELIANE: No dia 31 de março, cerca de seis mil soldados, comandados pelo General Olímpio Mourão Filho, tinham saído de Juiz de Fora, em Minas, e vinham marchando pelo que hoje é a BR 040 em direção ao Rio de Janeiro, numa rebelião para derrubar o presidente João Goulart.

SUMAIA: Aquela sessão no Congresso Nacional, pouco mais de 36 horas depois do levante, tentava dar um ar de legalidade ao golpe. Como Jango não era acusado pelos crimes de responsabilidade previstos na Constituição em vigor na época, a manobra foi alegar que ele se ausentou do país sem a autorização do Parlamento.

ELIANE: O que não tinha acontecido. O primeiro secretário do Congresso era o governista Adalberto Sena, do PTB. Ele até leu a mensagem do ministro-chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, para avisar que o presidente estava no Brasil e se organizava para resistir. 

SESSÃO CONGRESSO NACIONAL:  O senhor presidente da República incumbiu-me de comunicar a Vossa Excelência que, em virtude dos acontecimentos nacionais das últimas horas, para preservar de esbulho criminoso o mandato que o povo lhe conferiu, investindo-o na chefia do Poder Executivo, decidiu viajar para o Rio Grande do Sul [aplausos], onde se encontra à frente das tropas militares legalistas e no pleno exercício dos poderes constitucionais com seu ministério.

SUMAIA: Não adiantou nada e, no grito, Auro Moura decretou que a presidência da República estava vaga.

SESSÃO CONGRESSO NACIONAL:O senhor presidente da república deixou a sede do governo. Deixou a nação acéfala! 

gritos: não é verdade! 

Numa hora gravíssima da vida brasileira. Em que é mister que o chefe de estado permaneça à frente do seu governo! Abandonou o governo! 

gritos ao fundo: não é verdade

E essa comunicação faço ao Congresso Nacional. Esta acefalia, esta acefalia, configura a necessidade do Congresso Nacional como poder civil, imediatamente tomar a atitude que lhe cabe nos termos da Constituição Brasileira, para o fim de restaurar nesta Pátria conturbada a autoridade do governo e a existência de governo! Não podemos permitir que o Brasil fique sem governo, abandonado!

Gritos e vaias

Há sob a nossa responsabilidade a população do Brasil, o povo, a ordem!  Assim sendo, declaro vaga a Presidência da República! 

Gritos e vaias - Jango continua presidente! - Golpista! Golpista!

TRILHA 🎶

ELIANE: Em 2013, o Congresso Nacional anulou essa sessão. Um ato simbólico para mostrar que o nome do que aconteceu em 1964 é golpe, mesmo. O que não tem jeito de anular é o tempo que passou…

SUMAIA: Faz 60 anos que esses acontecimentos entraram pra história. Foi o estopim de uma disputa travada nas ruas, jornais, rádios, palanques, plenários, discursos, projetos de lei e, sim, corações e mentes. Uma disputa por qual Brasil seria construído a partir dali. 

TRILHA 🎶  

SUMAIA: Vamos voltar para pouco mais de 15 dias antes do golpe. …

EFEITO SONORO DE REBOBINAR 🎶

SOM AMBIENTE DO COMÍCIO DA CENTRAL DO BRASIL

ELIANE: Rio de Janeiro. 13 de março de 1964, uma sexta-feira. Treze… 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas… 

SUMAIA: Esse é João Belchior Marques Goulart. Nome político João Goulart. Ou simplesmente Jango. Um gaúcho de São Borja, filho de fazendeiro, criador de gado. Mas, discípulo de Getúlio Vargas e membro do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, ele fez carreira se aliando ao setor sindical.

ELIANE: Ainda presidente, Jango falava para cerca de 200 mil pessoas na Central do Brasil, uma gigantesca estação ferroviária que fica no centro do Rio de Janeiro. 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Dirijo-me também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem e que pagam em sofrimento, pagam em miséria, pagam em privações o direito de ser brasileiro e de trabalhar de sol a sol pela grandeza deste país.

Gritos da multidão

SUMAIA: O palanque era mais baixo que as cabeças da multidão. Jango apertava as mãos dos presentes com facilidade. Com ele estavam a primeira-dama, Thereza Goulart, o deputado Leonel Brizola, o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, José Serra, na época presidente da União Nacional dos Estudantes, a UNE, vários ministros e outros políticos da base do governo. 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Chegou-se a proclamar trabalhadores bra…[corte] que essa concentração …

ELIANE: É um áudio antigo. Gravado em fita de rolo, algo que muitos ouvintes não devem imaginar do que se trata… enfim, é antigo e o registro tem algumas falhas…

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Chegou-se a proclamar trabalhadores bra…[corte] que essa concentração seria um ato atentatório [corte] à democracia. Como se no Brasil, trabalhadores, a reação ainda fosse dona da democracia, o proprietário das praças e das ruas.

SUMAIA: Como se a reação ainda fosse dona da democracia… Essa é uma alfinetada de Jango na oposição. Elas se repetem o tempo todo no discurso

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Democracia para eles, trabalhadores, não é o regime da liberdade, da reunião para o povo. O que eles querem é uma democracia de um povo emudecido, de um povo abafado nos seus anseios.

ELIANE: Em vários momentos, João Goulart fala em democracia e defende algo que parece redundante, o de que para ter democracia é preciso ter participação popular. Não era um exagero. A imprensa diariamente abria espaço para os opositores do governo insinuarem que Jango tentaria um golpe.

NARRAÇÃO DE NOTÍCIAS DE JORNAIS DA ÉPOCA

DILSON SANTA FÉ: O Jornal – 6 de março de 1964

Os líderes oposicionistas temem que o presidente João Goulart, armando um atentado contra si próprio durante o comício do próximo dia 13 na Guanabara, a pretexto de revanche, venha a decretar o estado de sítio.

LUCIANO BARROSO: Jornal do Brasil – 8 de março de 1964

Deputados da Frente Parlamentar Nacionalista, passaram a preocupar-se, de modo especial, com uma ofensiva extralegal do Presidente da República, através de emenda constitucional considerada de todo absurda. 

SONS AMBIENTES DO COMÍCIO DA CENTRAL DO BRASIL 🎶   

SUMAIA: Os cartazes erguidos pelo público que compareceu ao Comício davam sinais do que o povo esperava ...

VOZES LENDO OS CARTAZES: 

 “O povo pede reformas”

“Agrária, urbana, eleitoral, tributária, universitária e bancária”

 “Abaixo com os latifúndios e os trustes”

“Está na hora do monopólio integral: Tudo de petróleo para a Petrobras”

“O Brasil não é quintal de Kennedy! A nossa pátria tem soberania”

 “Na lei ou na marra”

“Esse povo de quem fui escravo, não será mais escravo de ninguém”

TRILHA 🎶  ELE DISSE, DO JACKSON DO PANDEIRO

SOM DO COMÍCIO 🎶  

IARA: Esse comício foi organizado pelo Comando Geral dos Trabalhadores, e pela UNE. 

ELIANE: Essa é a Iara Cruz. Hoje ela é jornalista e diretora da ABI. A Associação Brasileira de Imprensa. 

IARA: Eu assisti o comício. Eu era estudante. Eu era filiada à União Metropolitana dos Estudantes, que era ligada à UNE, óbvio.

CAMPANHA DE CONVOCAÇÃO DO COMÍCIO:  Estudantes, a mocidade é a esperança de um Brasil melhor. Prestigiem o Comício das Reformas com Jango…

ELIANE: Movimentos sociais organizaram o comício e jingles, como esse que você ouviu na voz impostada do locutor da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, ajudaram a convocar estudantes, trabalhadores, militares… 

CAMPANHA DE CONVOCAÇÃO DO COMÍCIO: Atenção para a palavra de Roberto Morena, secretário da Comissão Permanente das Organizações Sindicais do Estado da Guanabara: Dia 13 de março, deve de assinalar para todos os brasileiros, principalmente para a classe trabalhadora, para os camponeses, para os estudantes, para os intelectuais, para todos os patriotas democráticos, o início de uma campanha séria, profunda, para que realizemos de fato as reformas tão necessárias ao nosso país.

CAMPANHA DE CONVOCAÇÃO DO COMÍCIO: Mais proprietários, mais consumidores, mais alimentos, mais justiça social. Tudo isso a reforma agrária proporcionará ao povo brasileiro. Compareça ao Comício das Reformas com Jango, dia 13, sexta-feira, às 17h30, em frente à Central do Brasil. 

IARA: E nós estávamos lá no meio do povo panfletando, gritando palavra de ordem, aquelas coisas. Eu já tinha 20 anos. A gente esperava fortalecer o governo João Goulart para ele conseguir implantar as reformas de base.

SUMAIA: A Iara nos ajudou a chegar no ponto. As Reformas Estruturais de Base. Um pacote de medidas para tentar mudar os problemas estruturais do Brasil. Naquela época, um país com quase 80 milhões de pessoas, metade delas vivendo na zona rural. A taxa de analfabetos era de 40%. Esse povo, aliás, não tinha direito ao voto.

ELIANE: Falando de improviso, Jango explicou, em 65 minutos, as principais propostas das tais Reformas. A mais alardeada delas, a reforma agrária.

SUMAIA: Antes de subir ao palanque, Jango assinou um decreto que declarava de interesse social as terras beneficiadas com saneamento e açudes da União, às margens de rodovias federais e de ferrovias, que, dependendo do tamanho e da função social, seriam desapropriadas. 

PRONUNCIAMENTO JANGO: A reforma agrária não é capricho de um governo, de uma pessoa ou de um programa de partido. A reforma agrária é produto da inadiável necessidade de todos os povos do mundo… 

ELIANE: A Reforma eleitoral dava, na prática, o poder do voto para os analfabetos.

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: …porque é uma exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todo os brasileiros maior de 18 anos também ajudarem a decidir os seus destinos…

SUMAIA: Na educação, já estava em curso um ambicioso Programa Nacional de Alfabetização. Agora, eram anunciadas mudanças no ensino superior. 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Também está consignada nesta mensagem a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros.

ELIANE: A reforma urbana controlava a especulação imobiliária, criando regras para o preço dos aluguéis… 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Trata-se do decreto que vai regulamentar o preço extorsivo e abominável dos apartamentos que encontram-se vazios.

SUMAIA: No campo econômico, Jango assinou no mesmo dia um decreto para encampar, quer dizer, estatizar as refinarias de petróleo particulares em solo brasileiro, em benefício da Petrobrás.

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: A partir deste instante, a Capuava, a Ipiranga, Manguinhos, Amazônia e Destilaria Rio Grandense pertencem ao povo, porque pertencem ao patrimônio popular.

ELIANE: As reformas tributária, bancária e administrativa também estavam no pacote. Mas, para garantir tudo isso, era preciso uma reforma constitucional. 

PRONUNCIAMENTO DE JANGO: Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei proclamando em todos os recantos da Pátria, a necessidade, trabalhadores, da revisão da atual Constituição da nossa república, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.

MÚSICA 🎶  CIDADE VAZIA, NA VOZ DE ELIZETH CARDOSO

SUMAIA: As propostas davam esperança a jovens como Carlos Moura. Na época, um advogado recém-formado.

CARLOS MOURA:  Eu tive oportunidade de ver o espaço em frente à Central do Brasil, lotado, lotado, lotado, de gente que foi aplaudir o presidente João Goulart. Eu tinha 24 anos, advogava para camponeses e militava no sentido da reforma agrária. Que é uma reivindicação pela qual muitos brasileiros e brasileiras lutam até hoje. 

ELIANE: É falando dessas propostas que historiadores como Daniel Aarão, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, acabam voltando a conjugar aquele tempo verbal melancólico, o futuro do pretérito. 

DANIEL AARÃO: Eu valorizo muito esse programa das chamadas reformas de base. Ele de um modo geral era muito subestimado pelos estudiosos. Eles consideram que era um projeto muito retórico, um conteúdo pouco preciso. Eu penso ao contrário: o programa das reformas de base, caso aplicado, iria transformar profundamente o país. Era um projeto de Brasil alternativo, ao que, afinal, prevaleceu com a ditadura. Teria condições de construir um país mais justo, mais solidário e mais democrático também. 

SUMAIA: Claro que as tais reformas não iam agradar todo mundo. Mas para o historiador Rodrigo Patto, da Universidade Federal de Minas Gerais, era preciso algo a mais para unificar a oposição.

RODRIGO PATTO: A ideia de fazer algumas reformas sociais, afetou alguns grupos conservadores, alguns grupos de direita e mobilizou esses grupos contra algumas das reformas de base.  Mas é o que eu digo e eu digo isso há 20 anos, é que o elemento que uniu a todos os grupos que deram o golpe não foi uma oposição às reformas em si. O que uniu esses grupos foi uma oposição aos grupos de esquerda, ao governo João Goulart e aos movimentos sociais orientados pelo campo progressista.

SUMAIA: Já as provas de que as reformas tinham apoio popular ficaram por anos trancadas em alguma gaveta. Uma pesquisa do Ibope, feita dias antes do golpe, mostrava que quase 70% dos entrevistados aprovavam as propostas. O levantamento ouviu moradores de São Paulo e foi encomendado pela Fecomércio, que reúne os sindicatos patronais dos setores de Comércio e Serviços. Só que essa pesquisa foi tornada pública somente 40 anos depois.

ELIANE: Mesmo assim, muitas pessoas apoiaram o golpe. Olha o Daniel Aarão aí de novo, historiador da UFRJ, fala sobre essa aparente contradição.

DANIEL AARÃO: Porque houve ali, do ponto de vista das direitas, a capacidade de mobilização do povo para dizer ao povo que o que estava em discussão não era a ordem brasileira, era a civilização cristã. E aí infundiram o medo do comunismo, infundiram... E as forças progressistas não souberam se defender da melhor maneira. 

ELIANE: E quem queria deixar tudo como estava apelou para um fantasma que, na época, assombrava meio mundo.

MÚSICA 🎶   INTERNACIONAL COMUNISTA

SUMAIA:  Eram tempos de guerra fria, o mundo estava dividido em dois. De um lado, os Estados Unidos. Do outro, a extinta União Soviética. E o comunismo encarnava o maior inimigo do ocidente. 

JOÃO ROBERTO MARTINS: Isso está profundamente ligado não só à divisão do mundo em duas partes, a parte capitalista e a parte comunista...

ELIANE: Esse é o professor de História da Universidade Federal de São Carlos, João Roberto Martins, que estuda o militarismo no Brasil. 

JOÃO ROBERTO MARTINS: …mas também está ligado ao fato de que desde a fundação da Escola Superior de Guerra entrou no Brasil com muita força a doutrina de segurança nacional e que dizia que a principal luta que dividia o mundo era a luta da civilização cristã contra o comunismo. 

JORGE ARAÚJO: Comia criança. Comia criança. É isso que a minha mãe falava. Que o comunista, ele comia criança.

SUMAIA: O Fotógrafo Jorge Araújo tinha 15 anos em 1964, e não se esquece do que significava qualquer sinal de proximidade com o sistema político dos bolcheviques.

JORGE ARAÚJO: Isso era pregado para todas as crianças. E um dia eu falei para ela que era comunista, ela bateu na minha boca, e nunca minha mãe tinha me encostado a mão. “Meu filho, não diga isso”.

ELIANE: Sabe Fake News? Elas não foram inventadas pelo tiozão do zap. Mas precisava mesmo disso? De novo, Rodrigo Patto. 

RODRIGO PATTO: Eles não teriam conseguido derrubar o João Goulart e fazer o golpe daquela maneira se o tom dominante fosse “Abaixo as Reformas”. Por isso, o tom dominante era “abaixo o comunismo, abaixo a subversão, abaixo a desordem”. Isso  unia, né? desde o fazendeiro reacionário, até figuras de classe média urbanas, que não eram contra distribuir terras. 

SUMAIA: É nesse contexto mais complexo em que as reformas de base estavam inseridas. E não tem como esquecer o apoio dos Estados Unidos ao golpe. 

ELIANE: E houve ação direta. Primeiro, com diplomacia. Caso da Aliança para o Progresso, acordo de cooperação feito em toda a América Latina, com uma agenda que até lembrava as reformas de base: reforma agrária, industrialização, fim do analfabetismo… Mas a prática era assistencialista: 

MARILUCE MOURA: Distribuía alimentos, sobretudo leite em pó -  um leite horrível, meu, não diluía nem a pau dentro do café [risos] 

SUMAIA: Mariluce Moura foi presa e torturada na ditadura. Hoje ela é um dos principais nomes do jornalismo científico no Brasil. Mas, lá nos idos de 1960, uma adolescente de classe média baixa de Santa Luzia do Lobato, subúrbio de Salvador.

MARILUCE MOURA: Distribuía alguns alimentos básicos ali na população de baixa renda. Foi um trabalho intenso feito nas periferias urbanas do Brasil.

EFEITO SONORO DE JATO MILITAR

ELIANE: E quando o golpe foi consumado, teve até navios e aviões preparados para zarpar dos Estados Unidos para o Brasil, caso houvesse resistência. A operação Brother Sam. 

SUMAIA: Os Estados Unidos também influenciaram parte dos militares. A parte, claro, que deu o golpe. Mas, segundo o professor João Roberto Martins, naquela época ainda havia no Brasil o militar progressista. 

JOÃO ROBERTO MARTINS:  Havia uma divisão profunda dentro dos militares. Uma que depois iria se chamar Cruzada Democrática, que deu o golpe de Estado. Para eles, o principal problema do mundo era o avanço do comunismo. Então, naturalmente, eles eram favoráveis a uma aliança com os Estados Unidos e eles também eram favoráveis à entrada de capital estrangeiro para, vamos dizer, o que eles chamavam de promover o desenvolvimento nacional. Mas havia uma outra ala, que desapareceu, porque ela foi duramente reprimida a partir do golpe, e hoje em dia não existe no Exército uma ala progressista, onde dentro inclusive havia um ou outro oficial comunista, mas de um modo geral a ala nacionalista era favorável à autodeterminação dos povos, inclusive do Brasil.  Ela participou ativamente da campanha do Petróleo é Nosso, pela criação da Petrobras, e ela fez parte do grande movimento nacionalista popular que existiu até o momento do golpe e que foi derrotado pelo golpe.

ELIANE: Tinha militar progressista até entre os generais, mas o caldo entornou mesmo com os de baixa patente. Com soldos baixos, condições de trabalho precárias e sem direito ao voto, eles vinham se insubordinando. E o apoio de Jango a esse grupo ajudou a acelerar o golpe.

SUMAIA: E falando de militares e comunismo, aqui a gente precisa dizer que havia, sim, comunistas apoiando as reformas de base. Um exemplo que une esses dois mundos é Luiz Carlos Prestes, esse personagem quase mítico da história brasileira e que pressionava, pela esquerda, o governo de Goulart. Mas esse fato está longe de indicar que havia uma influência predominante dos comunistas no governo.

ELIANE: Como frisa Rodrigo Patto: Goulart nunca foi comunista.

RODRIGO PATTO: O João Goulart era um político trabalhista, da escola do Getúlio Vargas, que era a favor de distribuir um pouco de renda, a favor de melhorar salário, de direitos dos trabalhadores… 

SUMAIA: Patto continua a falar sobre o perfil do Jango no nosso próximo episódio. Será a vez de voltar um pouco mais no tempo para lembrar: o golpe não começou em 13 de março, no comício da Central do Brasil, e as reformas de base não eram uma novidade.

ELIANE: E se a esquerda coloca o bloco na rua para defender o projeto, a direita reage e aposta nas mulheres como a linha de frente da mobilização popular conservadora.

TRECHO DA CONVOCAÇÃO DA MARCHA: Convidam-se as mulheres de São Paulo, de todos os credos e de todas as nacionalidades, para participarem da Marcha da Família com Deus Pela Liberdade

SUMAIA: É o golpe disputando a preferência popular.

TRILHA 🎶  

ELIANE: Futuro Soterrado é a primeira temporada do podcast Perdas e Danos. Essa é uma produção original da Radioagência Nacional, veículo da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

SUMAIA: Hoje o lançamento foi especial, pra marcar a data do golpe. Para os próximos episódios, nosso encontro fica marcado para toda quinta-feira. O segundo sai no dia 11 abril.

ELIANE: Então já salva nosso perfil e não esquece de usar a ferramenta de avaliação da plataforma se você gostou do que ouviu até aqui. Isso nos ajuda a chegar em mais gente.

SUMAIA: Esse podcast é idealizado e narrado por Eliane Gonçalves e Sumaia Villela. A concepção de pauta da primeira temporada é da Eliane. A Sumaia desenhou a segunda temporada.

ELIANE: A nossa dobradinha segue em todas as etapas do projeto: pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral.

SUMAIA: Contamos, também, com a valiosa e sensível participação da Fran de Paula no projeto. Ela também faz produção, entrevistas, contribui com enfoques, enfim. Estamos juntas, Fran, muito obrigada.

ELIANE: A edição, parte da montagem e divulgação nas plataformas é da Beatriz Arcoverde. É também a nossa incentivadora de sonhos oficial. Valeu, Bia.

SUMAIA: A identidade sonora do podcast e a sonoplastia do episódio foram feitas pelo Jailton Sodré, a partir das composições gentilmente cedidas pelo nosso colega, Nelson Lin. 

ELIANE: Já a identidade visual e a arte são assinadas pela Caroline Ramos. 

SUMAIA: Dilson Santa Fé e Luciano Barroso fazem a narração dos recortes de jornal da época. As leituras dos cartazes são feitas por Sayonara Moreno, Guilherme Strozi, Carol Barreto, Lucas Pordeus León, Gésio Passos e Daniel Ito.

ELIANE: A versão do episódio em Libras, divulgada no YouTube, é feita pela equipe da EBC.

SUMAIA: Usamos material histórico do acervo da EBC, do Arquivo Nacional e do Senado Federal. Também usamos trechos de músicas de Tião Carreiro e Pardinho, Gonzaguinha, Jackson do Pandeiro e Baden Powell e Lula Freire na voz de Elizeth Cardoso, tudo com fins jornalísticos.

ELIANE: Agradecemos a Bia Aparecida, Lucas Krauss, Denise Assis, Carlos Santana, Sandra Arueira, Jorge Ferreira, Piero Leirner, Paulo Pinto, Nelson Lin, Elaine Cruz e Mara Régia pela ajuda com contatos, informações e apoio em geral.

SUMAIA: E principalmente obrigada a você que nos ouviu até aqui. Se puder tirar um tempinho para contar o que achou do podcast, agradecemos muito.

ELIANE:  Por favor, deixe uma mensagem em ouvidoria@ebc.com.br ou no site ebc.com.br/ouvidoria. Também dá para fazer uma manifestação em Libras para o número (61) 99862-1971

 Sobe som 🎶  

 

 
 
 

Beatriz Arcoverde

Concepção, idealização e narração

Eliane Gonçalves e Sumaia Villela
Pesquisa histórica, produção, entrevistas, roteiro, montagem e pós-produção no geral. Eliane Gonçalves e Sumaia Villela 
Produção, pesquisa, entrevistas e apoio Fran de Paula
Edição, montagem e coordenação dos processos
Identidade visual e design: Caroline Ramos
Interpretação em Libras: Equipe EBC
Implementação na Web: Beatriz Arcoverde
Identidade sonora e a sonoplastia

 Jailton Sodré

Trilhas de composições Nelson Lin
Narrações de Recortes de Jornal Dilson Santa Fé e Luciano Barroso
Agradecimentos Bia Aparecida, Lucas Krauss, Denise Assis, Carlos Santana, Sandra Arueira, Jorge Ferreira, Piero Leirner, Paulo Pinto, Nelson Lin, Elaine Cruz e Mara Régia
   
   
   
   

 

Quer saber mais sobre o tema? Confira o Caminhos da Reportagem, produzido pela  TV Brasil e a série de reportagens e entrevistas da Agência Brasil. 

 

Edição: Israel do Vale - Beatriz Arcoverde

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RJ: exposição marca a Década Internacional das Línguas Indígenas

Uma imersão na língua dos povos indígenas, com sua história, memória e realidade atual. Essa é a temática da exposição “Nhe’ẽ Porã: memória e transformação”, no Museu de Arte do Rio. 

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